quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O AMOR É CEGO

NOTA 6,5

Irmãos Farrelly, conhecidos pelo
estilo debochado e as vezes até de
mau gosto, se aventuram pelo campo
amoroso e com lições de moral e amizade
Os irmãos Bobby e Peter Farrelly ganharam fama na década de 1990 com as comédias escrachadas Débi e Lóide e Quem Vai Ficar Com Mary?, produções destinadas a um tipo específico de público. Escatológicas, ácidas e não raramente até beirando o mau gosto, suas piadas costumam fazer sucesso entre os adolescentes e plateia masculina, mas buscando ampliar seu público a dupla de cineastas e roteiristas resolveu sair discretamente de sua zona de conforto quando realizaram O Amor é Cego. O título deixa claro as intenções de flertar com o romantismo, sendo necessário pegar mais leve com as baixarias. Surpreendentemente, levando em consideração o histórico de seus realizadores, o longa não só é divertido na medida certa como também traz lições de moral, amizade e solidariedade. A partir de diálogos ágeis e irreverentes, o texto faz uma crítica a importância exagerada dada ao aspecto físico nas sociedades contemporâneas e certamente do futuro. A trama tem como protagonista o executivo Hal Larson (Jack Black), um sujeito fútil que se esforça ao máximo para cumprir a promessa que fez ao seu falecido pai de que jamais se envolveria com mulheres feias, assim coleciona apenas belas paqueras, ou melhor tenta. Sentindo-se a última bolacha do pacote, na verdade ele acaba gerando mais repulsa que atração, tanto no campo amoroso quanto profissional já que é frustrado por não ser promovido. Ainda que esteja longe do perfil de galã (seus quilinhos a mais depõem contra), o rapaz é cara-de-pau, bom de lábia e não se envergonha em dar em cima das garotas mais cobiçadas das festas, estas que, por sua vez, também não se intimidam em lhe dar um fora. Apesar de inicialmente arrogante, o protagonista consegue identificação imediata com os espectadores, afinal quem nunca julgou alguém pela aparência? Sua rotina e jeito de ser mudam completamente a partir do momento em que por um acaso do destino acaba ficando peso num elevador na companhia de Tony Robbins (Anthony Robbins), um guru de autoajuda que se impressiona com a visão simplista e preconceituosa que Larson apresenta das mulheres em um rápido bate-papo. Ele então o hipnotiza de forma que o rapaz passe a ver apenas a beleza interior das pessoas, principalmente das garotas.

Sem desconfiar que está sob efeito de hipnose, Larson conhece a simpática, bem-humorada, porém, desengonçada Rosemary (Gwyneth Paltrow), a quem julga ser a mulher mais perfeita do mundo. De fato, ela é uma moça repleta de qualidades, mas a própria tem consciência que é obesa, mas assim como o protagonista o público só fica sabendo disso tardiamente. Bem, nem tanto quanto o rapaz que se rasga em elogios para sua nova paquera. Quando ele a corteja dentro de um táxi pouco depois de se conhecerem os olhares desconfiados e espantados do motorista denunciam que há algo de errado neste flerte. Só depois tomamos conhecimento que a silhueta esguia da moça é fruto da imaginação de Larson, o que mais para frente renderá piadas quanto ao tamanho de sua calcinha e ao fato de vira e mexe ela quebrar cadeiras e sofás. Contudo, como diz o ditado popular, quem amo o feio bonito lhe parece ou como próprio título diz o amor é cego. O gordinho seletivo então faz de tudo para conquistar não só o amor da jovem, mas também sua confiança sempre tentando elevar sua autoestima, afinal não vê absolutamente nada de errado nela. O interessante é que não é apenas Rosemary que o protagonista vê de forma diferenciada, mas sim todas as mulheres que cruzam seu caminho também têm sua beleza interior destacada. Para o espectador, suas imagens são vistas primeiramente filtradas pelo olhar de Larson para depois serem reveladas como realmente são e validar as piadas, embora a hipnose renda um momento de pura ternura envolvendo uma criança com o rosto marcado por graves queimaduras. Esse olhar mais sensível acaba sendo para alguns o calcanhar de Aquiles da fita. Nada contra a iniciativa, mas procurando forçar a emoção do espectador os Farrelly perdem o foco. Embora contem com bizarrices como um homem com um rabo (papel de Jason Alexander, eterno coadjuvante desperdiçado) e ainda façam piadas envolvendo deficientes físicos e pessoas digamos desprovidas de beleza física, esta comédia romântica confunde-se facilmente com outras tantas do gênero, não reflete genuinamente o estilo dos cineastas. Próprio deles é o aspecto técnico (edição, fotografia, trilha sonora...) desprovido de maiores cuidados. Tudo parece feito a toque de caixa, mas no conjunto o que é relativamente tosco funciona como complementos às piadas.

A ideia para o enredo surgiu de uma experiência pessoal de Peter Farrelly dos tempos em que dividia um apartamento com um amigo que tinha amizade com um cego. O deficiente Sean Moynihan gostava de contar histórias engraçadas sobre encontros frustrados com mulheres cujo aspecto físico apenas podia imaginar e o cineasta o convenceu a ajudar ele e ao irmão na criação de um roteiro que explorasse situações semelhantes, mas para não bater de frente com moralistas alteraram o perfil do personagem principal de modo a terem uma inerente mensagem edificante para a conclusão. Fazendo humor de forma mais cautelosa, os cineastas podem ter desagradado parte de seus fãs, mas por outro lado certamente agradaram a novos espectadores, embora estes provavelmente não se tornaram seus seguidores visto que o peso do sobrenome Farrelly caiu de forma considerável ano após ano. Já Jack Black conseguiu efeito contrário. Até então mais conhecido por roubar a cena na comédia cult Alta Fidelidade, ele aproveitou à beça seu primeiro papel principal e só tem visto seu nome estampar a publicidade de filmes cada vez mais, sendo um ator que costuma agradar (e ironicamente também irritar) crianças e adultos na mesma proporção. Infelizmente as críticas e o passar dos anos não teve o mesmo efeito lucrativo para a bela Gwyneth Paltrow, aqui desprovida de vaidade em boa parte do tempo submetendo-se a uma incrível maquiagem que praticamente triplicou seu peso. A atriz consegue com fidelidade interpretar a louca criação que é Rosemary, ora magérrima ora rechonchuda, mas sempre consciente de sua forma física e dos constrangimentos que ela lhe provoca. Uma pena que a fita não conseguiu para ela o mesmo efeito de Quem Vai Ficar Com Mary? para Cameron Diaz, um caso em que obra e artista tornaram-se indissociáveis. Embora tenha conquistado uma polpuda receita nos cinemas e no então rentável mercado de vídeo, O Amor é Cego passou longe de marcar época, sendo apenas um passatempo que tira leite de pedra ao debruçar-se sobre uma piada só. No entanto, despretensioso e equilibrando-se entre clichês, erros e algumas boas sacadas, esta comédia hoje pode ser vista como um dos melhores momentos dos Farrelly.

Comédia - 104 min - 2001

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