segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CINCO ANOS DE NOIVADO

NOTA 5,0

Investindo mais em conteúdo
lançando mão de um arsenal de ideias,
comédia romântica não as aprofunda e
acaba em atropelos e final clichê  
O material publicitário de um filme deve vender sua ideia central, mas algumas vezes conseguem ir além. Cinco Anos de Noivado vende seu peixe com um casal visivelmente cansado após badalar na tão sonhada festa de casamento, mas a imagem também poderia ser interpretada como os noivos estavam se sentindo após tantos anos de espera: exaustos! Ou ainda poderia existir uma brincadeira do pessoal do marketing em relação ao próprio público que se sente fatigado após as longas duas horas de duração para contar uma história de amor cujo final já sabemos. O título resume a trama perfeitamente. Acompanharemos o início, o ápice, o rompimento e a reconciliação de um casal que durante os cinco anos que aguardaram para trocar alianças viveram os sabores e dissabores de uma relação a dois. Tom Solomon (Jason Segel) é um chef de cozinha em ascensão em Nova York e que após um ano de namoro decide pedir Violet (Emily Blunt) em casamento. Ela aceita sem pestanejar, porém, pouco tempo depois recebe uma oportunidade profissional e de estudos imperdível em Michigan, o que a obrigaria a se mudar e adiar os planos do casório. O noivo também recebe um convite para gerenciar seu próprio restaurante, mas altruísta como ele só decide abrir mão de seu sonho e embarcar no da companheira que estava apreensiva de deixar de investir na sua carreira e se frustrar mais adiante, temendo odiar e culpar o marido por isso. Contudo, é óbvio que a decisão não é boa para ambas as partes e isso se refletirá diretamente no relacionamento. O que duraria apenas dois anos acaba estendido por mais três, assim, em outra cidade, vivenciando novas experiências e se redescobrindo com o passar dos anos aprendendo a lidar com suas próprias limitações e consequências de suas escolhas, Solomon deixa para trás a imagem de homem seguro e responsável para assumir uma postura relaxada e infantilizada contentando-se com um emprego em uma pequena lanchonete e se acostumando a posição de voyeur do sucesso de Violet que cresce rapidamente como profissional de psicologia e não consegue perceber que pouco a pouco se afasta do namorado. Pior ainda, o destrói dia após a dia.

Fica uma pergunta no ar. Se iam viver juntos sob o mesmo teto no novo endereço, por que não se casaram logo de uma vez? Resposta: não haveria desculpa para um filme, mesmo sendo mais uma produção calcada na previsibilidade. Longe da família e dos amigos mais próximos, teoricamente o casal deveria ficar ainda mais entrosado, porém, a falta de diálogo cria um abismo entre eles, assim como a certa altura também existe um rompimento entre a trama e o espectador. Até a metade quando os protagonistas têm uma conversa franca sobre os rumos que suas vidas tomaram o longa consegue envolver, mas depois torna-se enfadonho. A verve cômica e agilidade estabelecidos no início abre espaço para cenas artificiais para ilustrar o rompimento e as consequências para o casal. A transformação de Solomon em um boçal soa forçada, uma anulação pessoal exagerada que não encontra correspondência no comportamento de Violet que se deixa muito facilmente ser influenciada por seu orientador na universidade, o antipático professor Winton Childs (Rhys Ifans), cuja participação na trama enfraquece o conflito principal e não é bem amarrada. Produzido por Judd Apatow, famoso por comédias para machinhos como O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos, em algumas passagens nota-se seu dedo como o fato do protagonista ingressar em um grupo de caça amador e do nada surgir uma conversa reflexiva envolvendo o consumo de donuts, doce que é uma febre entre os ianques há décadas. Todavia, tendo que dar espaço e importância semelhantes à personagem principal feminina fica nítido seu desconforto em ter que retratar de forma verossímil o sexo oposto (geralmente apresenta as mulheres como histéricas ou pervertidas). Desta forma, Violet por vezes assume a posição de “mala” da trama, sobressaindo seu egoísmo que esmaga a benevolência do companheiro. Não querendo ser machista, ficamos torcendo para uma virada do rapaz, inclusive até que encontre um novo amor. 

Contudo, a culpa do romance dos protagonistas não cativar profundamente não é só de Apatow obviamente. O diretor Nicholas Stoller divide os créditos do roteiro com o próprio Segel, parceria que já havia rendido Ressaca de Amor. A dupla também já havia trabalhado junta na versão de As Viagens de Gulliver estrelada por Jack Black e que trazia Blunt como a mocinha da história, ou seja, Cinco Anos de Noivado é um projeto de amigos e o clima de camaradagem transparece. Sim, embora o amor de Violet e Solomon não arrebate o espectador, a simpatia de seus intérpretes prevalece e atmosfera é bem leve, este talvez justamente o problema da fita. A gama de assuntos sérios abordados é muito grande e poderiam ser desenvolvidos afundo discutindo as complicações dos relacionamentos modernos, mas no final das contas são apenas jogados na tela para encher linguiça. Como não é um projeto de algum diretor do circuito alternativo, há todo um esforço para que a trama amorosa se sobressaia. Sabendo o desfecho inerente do roteiro, as vezes temos a impressão de que os atores principais atuam no piloto automático e em alguns momentos exageram no tom, principalmente nos momentos que exigem dramaticidade. Buscando uma comédia romântica madura e que fugisse ligeiramente do lugar comum, é irônico ter que afirmar que a identificação é mais fácil com os coadjuvantes. O casal Suzie (Alison Brie) e Alex (Chris Patt), irmã de Violet e o melhor amigo de Solomon cujo envolvimento também acompanhamos desde o início, são típicos do gênero e também representam respectivamente o amadurecimento e a imaturidade tal qual os protagonistas, mas suas atuações parecem mais naturais ou talvez seria o contexto em que são inseridos. Eles são o alívio cômico necessário para a longa jornada que o script propõe, um misto de drama e comédia no qual nenhum dos gêneros flui com homogeneidade. Ao final parece que assistimos a uma maratona de esquetes de algum seriado, ora divertido e ora melancólicos. De qualquer forma, para o gênero, a produção é acima da média, mas fica aquela sensação de que faltou alguma coisa ou até mesmo exageraram na receita. Entre discutir até que ponto vale abdicar de sua vida para agradar alguém e abordar as dificuldades das mulheres para equilibrar vida pessoal e profissional, o filme se acovarda de polêmicas e entrega um final tão doce quanto um bolo de casamento. 

Comédia romântica - 125 min - 2012

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