segunda-feira, 2 de novembro de 2015

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

NOTA 9,5

Irônico, diferente, escrachado,
nostálgico e com fundo melancólico,
comédia de humor negro só erra por
não explorar mais a fundo os personagens
O diretor Tim Burton ainda estava iniciando sua carreira, mas quando lançou Os Fantasmas se Divertem conseguiu apresentar todas as características que marcariam sua filmografia, do bizarro ao gótico, e obviamente atestando sua criatividade infinita. A ideia era fazer um filme de terror cujo protagonista seria um demônio que se disfarçaria de humano para se aproximar de duas famílias normais, porém, exterminaria uma delas e estupraria a filha adolescente da outra. Cruzes! Será que o projeto original daria certo? Tendo o cineasta no comando tudo é possível, mas certamente remodelar o argumento e transformá-lo em uma comédia foi uma jogada de mestre. Escrito por Michael McDowell, Warren Skaaren e Larry Wilson, na realidade trata-se de uma obra de humor negro que usa e abusa da criatividade e do que é pouco convencional, aproveitando-se de um elenco em ascensão na época para atrair público e acostumá-lo com o estilo de Burton. A trama começa nos apresentando o casal Barbara (Geena Davis) e Adam Maitland (Alec Baldwin) que levam uma rotina pacata e harmônica em um casarão numa colina de uma cidade bucólica no interior dos EUA. Certa tarde eles acabam sofrendo um acidente de carro (ridículo, porém, fatídico) e caem em um rio, mas só percebem que bateram as botas tempos depois. Muito apaixonados, eles não parecem se importar que morreram, afinal nem a morte foi capaz de separá-los e assim tentam manter suas rotinas, mas vão descobrir que a vida do além é cheia de regras e burocracia. Além das filas para serem atendidos no além (para fazer graça, um mundo retratado com um extravagante colorido tal qual em A Noiva Cadáver), durante mais de um século terão que viver presos dentro da própria casa, não podendo nem mesmo pisar no jardim, mas quando estão se acostumando com a situação a paz do casal é interrompida com a chegada de Delia (Catherine O’Hara) e Charles Deetz (Jeffrey Jones), excêntricos milionários que compram o casarão de uma parente dos antigos proprietários. Ou eles ainda seriam os donos do imóvel? Os Maitland não pretendem e nem podem sair dali, contudo, são inofensivos como fantasmas e os esforços para espantar os novos moradores acabam sempre em fracasso. A adolescente Lydia (Winona Ryder), a filha incompreendida e depressiva dos Deetz, talvez por não se enquadrar no mundo que vive é dotada de uma sensibilidade ímpar e é a única que consegue ver e interagir com os fantasmas e tentando ajuda-los só acaba piorando a situação para eles.

Delia é amiga de Otho (Glenn Shadix), um decorador metido a guru espiritual que a aconselha a tirar proveito das assombrações. Em um jantar para um pequeno grupo oferecido pela ricaça, os Maitland tentam colocar em prática algumas regras do manual para recém-falecidos e numa cena antológica forçam a dondoca, seu marido e os demais convidados a dançarem uma música do ritmo calipso (a lacradora “Banana Boat Song” de Harry Belafonte) possuindo seus corpos. Para completar todos têm seus rostos literalmente sugados pela própria comida. Difícil descrever a sequência, só mesmo vendo para acreditar no quão divertida e bizarra ela é. Todavia, ao invés dos possuídos se assustarem, a experiência sobrenatural só reforçou a vontade dos Deetz ficarem na casa, ainda mais com o coro dos amigos incentivando-os a explorar financeiramente as evidências de que existe vida após a morte, ainda mais quando encontram fotografias que Lydia fez de vultos usando lençóis cujos pés não aparecem. A essa altura Barbara e Adam se convencem que precisarão de uma ajuda extra do mundo dos mortos e recorrem a Beetlejuice (Michael Keaton), uma criatura excêntrica e travessa que se apresenta como um exterminador de humanos. Ao se envolverem com este demônio, o casal acaba colocando em maus lençóis a jovem Lydia que exalando carência os comove a ponto de quererem cuidar dela como a filha que nunca tiveram, mas o endiabrado bio-exorcista a deseja ao seu lado como sua esposa. De um argumento bem mais sombrio e intimista, Burton conseguiu realizar uma inventiva e deliciosa comédia para discutir um tema soturno. O próprio Keaton o incentivou a trilhar esse caminho mais leve. Seu personagem, cujo nome intitula originalmente a obra (no Brasil preferiram uma alcunha genérica), aparece pouco tempo em cena, mas o desprendimento e a intensidade do ator fazem com que sua presença seja marcante. Tagarela, sarcástico e literalmente cheio de truques na manga, ou melhor, por toda a roupa, sem dúvidas essa é uma das melhores atuações do ator que aparece irreconhecível sob uma intensa e marcante maquiagem, aliás a equipe responsável merecidamente ganhou o Oscar da categoria. O longa ainda ganharia como Melhor Filme da Academia de Cinema de Ficção-Científica (que premia produções de horror e fantasia) e Keaton foi eleito como Melhor Ator pela Sociedade Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA. No ano seguinte ele daria vida ao homem-morcego Batman na adaptação homônima também dirigida por Burton. Após a segunda aventura do herói a carreira do astro entrou em decadência só recuperando prestígio duas décadas mais tarde com Birdman.

Como dito no início, o filme gabava-se de um elenco em evidência, mas é curioso como o passar dos anos não foi benéfico para suas carreiras. Geena Davis havia ganho no mesmo ano o Oscar de atriz coadjuvante por O Turista Acidental e demonstra uma química perfeita com Alec Baldwin que também viria a ser um nome bastante requisitado na década seguinte, porém, nos anos 2000 viraram figuras raras em filmes. Já Winona Ryder estava dando os primeiros passos de uma carreira frutífera. Participante de obras marcantes, problemas pessoais a levaram a decadência, inclusive um escândalo a envolvendo em um furto de loja, sendo lembrada apenas para produções menores e despercebidas. E o que dizer da sumida Catherine O’Haara? Mais lembrada como a mãe de Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim e sua continuação, a atriz entrou no projeto de última hora substituindo Anjelica Huston que estava doente e marcou com a citada cena de dança no jantar na qual demonstra todos seus dotes artísticos. Do início ao fim ela convence como a escultora frustrada e petulante, um contraponto a passividade do marido vivido por Jeffrey Jones que também teve um período de bastante trabalho, mas teve a carreira irremediavelmente abalada ao se envolver com pedofilia e desobedecer à Justiça. Seria alguma espécie de maldição que acometeu a todos? Se foi isso felizmente ela não atingiu Burton que só ascendeu profissionalmente. Além de alguns curtas-metragens, na época o diretor tinha em seu currículo apenas um longa. As Grandes Aventuras de Pee-Wee foi um projeto encomendado para lucrar em cima de um famoso personagem da TV americana e a arrecadação gigantesca nas bilheterias lhe deu carta branca para fazer o que quisesse em seu trabalho seguinte. De um apavorante exercício de terror, Os Fantasmas se Divertem se transformou em uma comédia excêntrica que virou um clássico da “Sessão da Tarde”, um produto criativo e irônico cujo tema principal é discutir sobre a repulsa ao que é diferente, algo recorrente na filmografia do cineasta. Visando todas as idades, é certo que o roteiro caminha para um final feliz, mas até lá o roteiro investe em reviravoltas, texto ágil e piadas visuais que fascinam o espectador. Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades que a trama oferece, além de trabalhar com cenários um tanto kitsch que combinam com os efeitos especiais propositalmente datados e fakes, propostas artesanais como uma espécie de resposta à indústria de cinema que se rendia às trucagens digitais. O resultado é uma película única, com espírito teatral, quase uma brincadeira de um grupo de atores que realizam exercícios de interpretação saindo do lugar comum. E para Burton a obra é como um cartão de visitas. Tudo que viria permear sua filmografia está aqui, quebrando convenções e atestando a qualidade autoral de suas obras.

Vencedor do Oscar de maquiagem

Comédia - 92 min - 1988

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Um comentário:

CONDE disse...

Gosto demais desse filme do diretor. Pena que ele seja tão irregular. Belo escrito.

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