sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A ÚLTIMA CASA DA RUA

NOTA 3,0

Suspense repleto de clichês e
trama enfadonha deposita suas
fichas sobre o carisma e repentino
sucesso de Jennifer Lawrence
Qual o segredo de um bom filme de suspense? Teoricamente, quando sentimos tensão crescente e constante a ponto de sofrer, investigar, duvidar ou até mesmo odiar juntamente com os personagens isso quer dizer que a produção cumpriu seus objetivos, mesmo que as vezes não em absoluto. A Última Casa da Rua peca justamente por não conseguir criar vínculos sólidos com o espectador, a começar pela história que não faz a menor questão de escamotear sua falta de criatividade. Buscando dar novos rumos às suas vidas, a jovem Elissa (Jennifer Lawrence) acaba de se mudar com sua mãe Sarah (Elizabeth Shue) para um isolado casarão em uma cidade do interior aparentemente pacata, mas na verdade assombrada pelas lembranças de um chocante crime que acabou desvalorizando as moradias da região. Os poucos vizinhos não tardam a dar detalhes sobre a tragédia ocorrida há cerca de quatro anos na tal casa do título quando um casal foi assassinado pela própria filha de apenas 13 anos e desde então a menina nunca mais foi vista, gerando a lenda urbana de que ela estaria habitando a densa floresta que circunda e distancia as residências umas das outras. Seu irmão mais velho Ryan (Max Thieriot) continuou morando no mesmo endereço do fatídico episódio, mas recluso e avesso a contatos sociais, isso até a chegada de Elissa que fazendo jus ao comportamento de uma típica adolescente rebelde acaba se apaixonando pelo esquisitão, um romance que obviamente vai encontrar objeções por parte de Sarah. O primeiro ato desta trama apresenta de forma clara seus personagens e conflitos, porém, não cativa e tampouco esconde seu clima de “déja vu”. O número de clichês é assustador. Um crime do passado, um personagem soturno, mãe e filha vivendo em conflito, alguém desaparecido e cenários propícios para sustentar histórias de arrepiar. Todavia, o diretor Mark Tonderai, então estreando na função, embora demonstre apreço pelo gênero, parece não saber como alinhavar tantos elementos e menos ainda como trabalhar com pistas falsas.

O diretor se complica ainda mais quando decide dar uma de espertalhão e tentar surpreender o público revelando o grande mistério envolvendo Ryan e sua casa prematuramente, deixando a sensação de que algo surpreendente está por vir, no entanto, o filme emperra. A trama se perde em meio a um emaranhado de situações que causam mínima tensão, parecendo que a produção tem como único objetivo promover a bela e talentosa Lawrence, infelizmente aqui engessada pelos estereótipos comuns às mocinhas ameaçadas por psicopatas. Ela grita, faz caras e bocas de espanto, corre bastante e a câmera captura com voyeurismo seu arfar nervoso com closes generosos de seu busto. Certamente a atriz só deve ter aceitado o projeto por oportunismo. Na época das filmagens ela ainda não havia sido indicada ao Oscar pelo drama independente Inverno da Alma e tampouco alçada à categoria de estrela ao protagonizar a saga Jogos Vorazes. Qualquer convite para uma atriz em início de carreira é bem-vindo, assim é perdoável sua escolha por um suspense que não chega a ser insuportável ou mal feito, mas revela-se um tanto burocrático e esquemático, debruçando-se sobre o carisma da jovem para se sustentar. A trama é baseada em uma história criada por Jonathan Mostow em 2003 quando o próprio também pretendia assumir a direção. Os anos passaram e envolvido com outros trabalhos ele acabou passando o argumento para David Loucka roteirizar. Sabendo que ele é o responsável pelo texto do enfadonho A Casa dos Sonhos, as referências já não eram as melhores e o conjunto ainda foi prejudicado pela inexperiência de Tonderai. Ainda que consiga criar certa aura de mistério usando clichês sonoros, de iluminação e de fotografia, o diretor não consegue dar identidade ao seu trabalho. Nem mesmo na condução das cenas de drama mostra-se eficiente, colocando a experiente Shue para realizar cenas sem brilho algum e com chororô que não convencem. Triste ver que uma atriz já indicada ao Oscar e a tantos outros prêmios não tenha conseguido se favorecer da exposição. Alguém ainda se lembra de Despedida em Las Vegas? Pois é, os produtores de elenco também não devem.
Após perder mais da metade do tempo para aprofundar uma história tão rasa quanto um pires, esperando em vão que o romance entre a adolescente rebelde e o carinha sinistro emplaque ou até mesmo que os draminhas familiares segurem a audiência, no ato final o diretor corre desesperadamente atrás do prejuízo inserindo uma série de reviravoltas, mas já é tarde demais para elevar o nível da fita. Não há truque da cartola que dê jeito quando o público não tem motivos para se solidarizar com os personagens. Será que Elissa é tão excêntrica que nunca assistiu a um filme de terror ou suspense como qualquer jovem normal? Só assim para explicar como uma garota decide ir embora de uma festa tarde da noite desacompanhada para andarilhar um bom pedaço de estrada vazia e ainda mais aceitar a carona de um estranho quando uma chuva providencial cai dos céus. A falta de cautela deve ser mal de família. Sua mãe também nem bem chega à nova cidade e já expõe todos os seus problemas pessoais para Weaver (Gil Bellows), um policial que acabara de conhecer, mas rapidamente se torna seu ombro amigo para lamentações. Como a maioria dos homens da lei forçosamente inseridos em tramas do tipo, sua participação para a resolução do grande mistério é descartável, uma inserção apenas para encher linguiça. O próprio Ryan que em tese seria o personagem com mais aspectos dramáticos e psicológicos a serem explorados com sua suposta ambiguidade acaba ficando apagadinho, muito por conta da fraca atuação de Thieriot, mas também pelo próprio roteiro que parece fazer questão de apenas exaltar Lawrence. De qualquer forma, A Última Casa da Rua merece um elogio pela opção de construir um suspense mais realista, fugindo da violência gráfica extrema tão comum ao gênero e dos psicopatas mascarados imortais, mas nem por isso deixamos ter alguns forçados sustos com as aparições da tal garota desaparecida devidamente caracterizada ao estilo dos espectros das fitas de horror orientais. Seria ela real, um fantasma ou delírios impulsionados pelas lendas que cercam seu crime? Talvez alguns se surpreendam com a maneira encontrada para conduzir tal mistério, mas para bom entendedor do gênero o gostinho de rançoso é inerente.

Suspense - 101 min - 2012

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