quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A BRUXA

NOTA 8,5

Invertendo expectativas, obra foge
da previsibilidade e clichês para
narrar história de terror psicológico
em que fé e ignorância são os vilões
Basicamente histórias de horror são construídas tendo como base o bem contra o mal ou, seguindo tradições cristãs, resumem-se a batalha sem fim de Deus contra o Diabo. Dependendo das crenças de cada espectador uma mesma obra do tipo pode ter um amplo leque de interpretações, principalmente quando a violência gráfica não está no enfoque. Seguindo uma proposta razoavelmente incomum, a ideia do suspense A Bruxa tem como ponto de partida a dúvida sobre a existência daquilo que seus personagens acreditam. A introdução apresenta uma família, com todos os membros de costas para a câmera, ouvindo sua sentença em um tribunal que os acusa de heresia. O pai, a mãe e seus cinco filhos são expulsos da comunidade em que vivem. Estamos em meados do século 17 na Nova Inglaterra, época e local em que qualquer desvio do padrão religioso imposto é interpretado como uma grave ameaça para manter a sociedade no caminho considerado correto. Assim o título ganha duas conotações iniciais. O clã sentenciado poderia de fato adorar a figura concreta de uma feiticeira bem como encaixa-se uma metáfora a respeito da expressão caça às bruxas, como ficaram conhecidas as perseguições às pessoas que tinham comportamentos e ideais contraditórios ao que era imposto por regimes políticos e religiosos na Europa durante a Idade Média. No entanto, não fica claro qual o credo praticado pelos acusados e repudiado para tal sentença, mas é a partir do afastamento do tal núcleo familiar que eventos assustadores são desencadeados. Detalhe, não envolvendo a comunidade, mas sim os próprios membros da família que ironicamente partiram reafirmando que dificilmente existiriam outras pessoas tão apegadas a fé como eles. Os puritanos William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) mudam-se para uma região inóspita e isolada do interior, próximo a uma floresta, e não tardam a sentir e presenciar sinais de que uma força estranha paira por lá. Os problemas começam quando, além do fracasso das colheitas das plantações que garantiriam o próprio sustento do clã e a rebeldia repentina doas animais que criam, a filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy) perde o irmão mais novo, um bebê de colo, de forma inexplicável. Foi só um segundo de distração e parece que alguma criatura maligna cruzou seu caminho. Logo os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) também vivenciam estranhas situações assim como Caleb (Harvey Scrimshaw), o filho do meio que se enche de coragem para ajudar os pais neste momento em que a fé de todos é colocada em xeque.

Abrindo mão de reviravoltas ou violência exagerada, mas exaltando o realismo, o diretor e roteirista estreante Robert Eggers em um primeiro momento parece que conduzirá sua obra atrelada a típica imagem da bruxa medieval, a imagem e semelhança das vilãs universalizadas pelos contos clássicos dos irmãos Grimm. Seria uma força estranha que habita a mata cerrada e vigia o cotidiano da família aproveitando de seus momentos de distrações. A qualquer momento algo inesperado pode acontecer e os personagens permanecem imersos em uma tensão crescente com o equilíbrio psicológico de todos abalado a ponto da adolescente Thomasin ser hostilizada pelos próprios parentes que suspeitam que ela esteja metida com bruxaria, ainda que seu pai defenda a ideia de que um lobo capturou seu filho. Todo o enredo gira em torno da personagem defendida por Taylor-Joy que consegue manter um jeito meigo e delicado mesmo sendo uma vítima do medo. Apontada como negligente após o sumiço do bebê, ela passa a estranhar o comportamento dos irmãos, principalmente dos gêmeos que, embora acreditem que ela tenha ligações com o demônio, são eles que conversam com um bode preto, animal cuja imagem é intrinsicamente vinculada ao universo satânico. Para complicar a situação, a jovem está na idade de transformações físicas e do despertar sexual, elementos muito exaltados em fitas de horror, assim causa certo desconforto entre os homens da família e estimula indiretamente uma rixa com a própria mãe pelo simples fato de estar cumprindo o ciclo da vida permitindo-se amadurecer. Ela representaria no cunho religioso a tentação que leva os homens a se desvirtuarem e mulheres a enlouquecerem por conta da inveja despertada. Ainda que pareça a pessoa mais sensata de sua casa, Thomasin carece de certa concepção intelectual e principalmente emocional, assim como seus demais parentes, para compreender que está havendo um desgaste gradual e natural dos laços afetivos, mas a moral cristã exagerada os forçam a encontrar um culpado para justificar a espiral de infortúnios. No fundo acreditam que forças malignas da floresta estão agindo sobre eles, porém, dentro da educação que os regem, é mais cômodo viver com a certeza de que tudo que é negativo é uma punição por algum pecado cometido, logo carregam tal sentimento desde o nascimento já que são frutos da luxúria. E nesse ambiente incômodo, registrado com uma paleta de cores cinzenta acentuando a precariedade da época, mais especificamente da triste vida que levavam pessoas à margem da sociedade, os recursos sonoros são exaltados. O ruído dos ventos, o piar dos pássaros, o estalar de um graveto, tudo que quebra o silêncio ganha um tom ameaçador.

Pela temática e ambientação, o filme estabelece uma ponte imediata com a clássica trama de As Bruxas de Salém, mas o diretor assumiu no Festival de Sundance, onde recebeu o prêmio de direção, que sua maior fonte de inspiração vem de O Iluminado. O próprio Stephen King, autor do livro que originou o sucesso estrelado por Jack Nicholson, revelou publicamente que se tornou fã de Eggers instantaneamente, certamente por perceber referências a seu trabalho pela abordagem do isolamento e suas ações negativas sobre o psicológico. Contudo, as semelhanças param por aí e A Bruxa se cerca de méritos próprios para conquistar elogios. Dispensando qualquer tipo de criação digital, o longa aposta exclusivamente em extrair medo de coisas provincianas. Se uma floresta fechada por si só já causa calafrios, a tensão aumenta tendo uma casa isolada como cenário principal e até a presença de bichos comuns pode se tornar uma ameaça quando estamos propensos a sensações negativas. Eggers oferece ao espectador a oportunidade de imaginar o terror ao invés de vivenciá-lo, assim tornam-se essenciais os cuidados com a fotografia, iluminação e direção de arte. O uso de velas e fontes de luz naturais, por exemplo, acentuam os efeitos de solidão e insegurança e aliados aos figurinos e objetos cênicos fazem com que cada frame nos remeta a pinturas renascentistas, estilo de arte contemporâneo à ação da trama. Oriundo do teatro, onde muitas vezes o trabalho detalhista do ator supre até mesmo a ausência total de cenografia, o diretor sabe que cinema depende da imagem, mas toma cuidado para que seu apuro técnico não se estabeleça como grande trunfo de sua obra. Seguindo a linha do suspense psicológico, a fonte dos conflitos é essencialmente humana e os agentes externos apenas servem como estopim para exporem seus sentimentos. O céu sempre nublado e o cenário envolto em uma sutil neblina criam uma metáfora à melancolia e energia pesada dos personagens, mas não são os motivos deles viverem imersos em um ambiente depressivo. Eles próprios alimentam a infelicidade com um fervor religioso degradante e um mínimo de instrução. Com diálogos em inglês arcaico, baseados em documentos reais e históricos, é certo que esta produção pode causar um impacto negativo em boa parcela do público que se sentirá enganado, mas sabendo de antemão que não se trata de um horror convencional calcado em sustos fáceis e adrenalina para selar a narrativa, a expectativa ou reação é no mínimo de curiosidade. Sem fazer rodeios, Eggers aproveita bem o tempo de arte, literalmente. Além do chamativo aspecto visual, a construção do clima de tensão e da psicologia dos personagens revelam a obsessão deste profissional em realizar um trabalho que ultrapasse os limites do entretenimento, colocando o espectador a refletir sobre o poder de uma crença, os problemas gerados pela ignorância e o sentido de família. A derradeira cena, com um quê de déja vu hollywoodiano, infelizmente quebra um pouco a atmosfera acachapante conquistada, mas é um defeito mínimo em tão belo conjunto.

Suspense - 93 min - 2015

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