sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A CASA DAS ALMAS PERDIDAS

NOTA 6,0

Baseado em um atordoante caso de
manifestações demoníacas, longa peca ao
condensar sem aprofundamentos mais de
uma década de sofrimento de uma família 
Horror em Amitivylle, Invocação do Mal, Anabelle.... Todos estes filmes têm em comum o fato de serem originados das experiências profissionais vividas pelo casal Lorraine e Ed Warren. Não ligou os nomes às pessoas? De fato, eles são mais conhecidos nos EUA e entre os fãs de terror, mas por décadas se dedicaram fielmente ao estudo de fenômenos sobrenaturais e mesmo com a morte do companheiro em 2006 a corajosa senhora levou adiante seus trabalhos, inclusive cuidando da manutenção de um museu em sua própria casa. Nele estão arquivados objetos levados como souvenires dos locais onde realizaram sessões de exorcismos, uma maneira de tentar impedir que aqueles que imploraram ajuda à dupla ou por ventura outros azarados viessem a sofrer com novas armadilhas do além ligadas a tais peças. Apesar do repentino sucesso dos Warren nos anos 2000 graças ao cinema, um antigo telefilme baseado em um de seus causos já tirara o sono de muita gente em madrugadas insones e deve ter rodado muitas casas nos tempos das videolocadoras. A Casa das Almas Perdidas tem como protagonista a família Smurl que em 1975 se muda para uma grande e bonita casa em uma nova cidade onde são recebidos com muitas boas-vindas e quitutes pelos vizinhos, tudo ao melhor estilo da beleza americana. Nos primeiros meses, nada de mais aconteceu na residência, porém, não demorou muito para que estranhos fenômenos passassem a perturbar seus habitantes, tanto de dia quanto a noite. A mais afetada é a matriarca, Janet (Sally Kirkland) que passa a ouvir vozes lhe chamando, barulhos estranhos, problemas com eletrodomésticos que parecem ter vida própria e chega a ver vultos negros perambulando pelos cômodos. Jack (Jeffrey DeMunn), seu marido, inicialmente acredita que a esposa esteja tendo delírios, mas muda de ideia assim que presencia sua esposa sendo assediada por um espírito libidinoso. Ele próprio também é praticamente estuprado por uma dessas almas (uma cena grotesca, mas que na época deve ter embalado pesadelos). Do jeito que o diabo gosta, aparentemente o jogo destes fantasmas seria destruir a família usando a discórdia como ferramenta, por exemplo, colocando Janet contra a sogra Mary (Louise Latham) que diz com convicção que por várias vezes ouviu a nora falando palavrões e obscenidades, um ultraje para uma família que tanto prezava a religiosidade.

Quando os filhos do casal Erin (Michelle Collins), Colleen (Krista Murphy), Shawn (Ashley Bank) e Katie (Allison Barron) também passam a ter problemas com os estranhos episódios, seus pais decidem recorrer justamente à religião, mas tem o pedido de exorcismo negado por conta de certas burocracias, na verdade muito mais convicções católicas que obrigam seus membros a não acreditarem de que há muito mais mistérios além do que suas crenças possam justificar. Larson (John O’Leary), o padre da paróquia local, até tenta aconselhar a família, mas demonstra receio de lidar com o sobrenatural. Eis que Janet toma conhecimento sobre os Warren e assiste a uma de suas palestras na qual vai pessoalmente relatar seu problema. Ed (Stephen Markle) e Lorraine (Diane Baker) visitam a casa e de imediato presenciam estranhas manifestações, constatando que de fato existem espíritos habitando o local, entre eles uma entidade realmente com vocação demoníaca. A notícia então é divulgada para a imprensa como forma de pressionar a Igreja a colaborar, mas a situação piora com a invasão de privacidade que a família passa a sofrer. Diariamente dezenas de repórteres faziam plantão do lado de fora da casa e não tardou para que romeiros se disponibilizassem para ajudar com correntes e vigílias de orações. E o filme se resume a isso. Um rápido passatempo que apenas condensa um martírio de mais de uma década em uma trama levada no banho-maria, com sustos quase nulos e sem aprofundar os personagens, seja no lado psicológico ou emocional.  Roteirizado por Darrah Cloud, baseando-se no livro “The Haunted: One Family’s Nightmare” do jornalista Robert Curran, a narrativa compila os pontos de vistas de 28 pessoas que tiveram algum tipo de contato com o caso, desde percepções de curiosos até relatos dos próprios moradores colhidos na época. Considerado um dos mais terríveis episódios envolvendo casas assombradas ocorridos em território norte-americano, o longa obviamente não mostra nem a metade dos apuros pelos quais os Smurl passaram, já que orações e água-benta eram apenas soluções paliativas e a intervenção dos Warren revelou-se inútil. Os caça-fantasmas chegaram a trazer outro padre, o Sr. Kent (Jake Jacobs), especialista em exorcismos, mas sua reza em latim apenas enfureceu ainda mais o demônio.

Entre longos períodos de tormenta e alguns poucos de calmaria, os Smurl só foram ter sossego no final da década de 1980 quando se mudaram novamente. Na nova casa as manifestações do além continuaram, mas finalmente a Igreja reconheceu a gravidade da situação e interviu com mais ferocidade, finalmente acabando com o longínquo martírio. Com direção de Robert Mandel, que viria a fazer fama na TV com a direção de episódios de séries como “Lost” e “Prison Break”, A Casa das Almas Perdidas peca no quesito efeitos especiais como de praxe em antigos telefilmes que não gozavam do apuro técnico atual. As poucas cenas que exigiam uso de trucagens, sejam de computação ou artesanais, denunciam o orçamento modesto e hoje causam mais risos que sustos. Todavia, o diretor preferiu se ater ao drama emocional e psicológico dos personagens, ainda que a rapidez com que narra os fatos prejudique a percepção do espectador quanto a dimensão do sofrimento da tal família. A agonia seria ainda maior por conta de os fatos acontecerem em uma época de recursos midiáticos restritos, assim os Smurl não tinham de onde tirar informações para se autodefenderem e a sensação de que deveriam ser os únicos a viverem tamanho calvário certamente era constante. Mesmo com o forte impacto do ceticismo dos membros da Igreja que pode ter influenciado negativamente os rumos desta história, a produção se esquiva de induzir o espectador a compactuar com ideias, preferindo se ater ao modo como as vítimas reagiam aos fenômenos sobrenaturais sem tirar conclusões. Apenas jogando fatos na tela, deixando praticamente todo fardo para Kirkland carregar (o que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro), a narrativa torna-se enfadonha, sentimos falta de discussões mais profundas a respeito de crenças e nem mesmo temos a certeza de o porquê daquelas pessoas literalmente sofrerem o diabo. Não há razão clara para terem sido escolhidos, o que também enfraquece o final que deveria ser impactante indicando que a perseguição aos Smurl continuaria mesmo em um novo endereço. Contudo, mesmo com suas falhas narrativas, produção simplória e evidente envelhecimento, hoje esta obra curiosamente consegue envolver muito mais que muita fita de horror badalada. Nem de longe causa o impacto de outrora que muitos relatam, mas vale a pena uma conferida sem criar grandes expectativas.

Suspense - 100 min - 1991

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