terça-feira, 1 de novembro de 2016

PENÉLOPE

NOTA 6,0

Brincando com chavões de
contos-de-fadas, comédia tinha
potencial de ir além aprofundando
críticas à mídia e ditadura da beleza
Os contos de fada sempre foram uma fonte de inspiração importante e das mais requisitadas pelo cinema desde seus primórdios e as paródias protagonizadas por princesas, bruxas, elfos e outros seres fantásticos formam praticamente um subgênero do campo da fantasia. Adaptada da obra da escritora Marilyn Kaye, a comédia romântica Penélope não é uma versão modernizada de uma história em específico, mas podemos perceber aqui e ali referências que estão enraizadas no imaginário popular. A talentosa Christina Ricci dá vida à moça do título, que assim como Aurora, a Bela Adormecida, logo que nasceu foi amaldiçoada, ou melhor, a maldição já estava em sua família, mas até então nunca manifestada. Filha do milionário e famoso casal Jessica (Catherine O’Hara) e Franklin Wilhern (Richard E. Grant), a garota sofreu por um deslize de um parente de muitas gerações anteriores. O assanhado Ralph (Nicholas Prideaux) viveu um romance com uma empregada de sua casa, mas acabou se casando com outra mulher de mesmo nível social por pressão da família. Grávida e desiludida a jovem acabou se suicidando e sua mãe quis se vingar. Revelando-se uma poderosa bruxa, ela lançou um feitiço: a primeira herdeira mulher do clã que nascesse seria castigada e teria que aprender a viver com um focinho de porco no lugar do nariz, trazendo vergonha aos que a cercam e que tanto davam valor a vaidade. No entanto, Ralph teve um filho homem, que por sua vez também teve um herdeiro do sexo masculino e assim por várias gerações a maldição não se manifestou até o nascimento da doce Penélope que passou sua infância e juventude trancada dentro de casa, como no conto de Rapunzel, muito mais pelo excesso de zelo de Jessica que não queria virar chacota da alta sociedade. O encanto só seria quebrado caso algum rapaz também de família nobre se apaixonasse pela garota, o que levou seus pais a uma busca desenfreada para arranjar um pretendente assim que ela completou 18 anos de idade. O problema é que não bastava marcar os encontros, mas também convencer os modernos príncipes que bastava um beijo de amor verdadeiro para o patinho virar cisne, ou melhor, a porquinha virar uma bela mulher. Todavia, assim que eles a viam, os rapazes fugiam histéricos. O mordomo Jack (Richard Leaf) até ganhou um par de tênis que em nada combinavam com seu uniforme para ajudá-lo a correr atrás dos noivos fugitivos.

Um dos últimos a visitar a garota foi Edward (Simon Woods), que ficou traumatizado com o que viu, mas ninguém acredita em seus relatos. Pudera, ele fez um retrato-falado de Penélope a descrevendo como um cruzamento de um lobisomem com a garota de O Exorcista! Puro exagero, mas sua convicção envolve o jornalista Lemon (Peter Dinklage) que fica obcecado pela ideia de ter uma foto da tal aberração estampando a primeira página de seu jornal. Por ironia ele próprio está fora dos padrões ditos como normais pela sociedade por ser um anão, mas ainda assim ficará no encalço de Penélope e para facilitar as coisas arma um plano e contrata Johnny (James McAvoy), um jovem viciado em jogos de azar que está devendo até a alma. Como os primeiros encontros são sempre feitos com um espelho falso escondendo a moça, sua missão é conquistar a confiança dela, superar o trauma de ver seu rosto revelado e convencê-la a deixar tirar uma foto. Apresentando-se como Max, um apaixonado por música e que demonstra não ter o menor receio pelos boatos que ouviu, ele consegue rapidamente conhecer Penélope, mas as coisas não saem como ele esperava. Arrependido de tê-la enganado, o rapaz desiste da farsa, mas a essa altura a moça resolve mudar de vida radicalmente decidindo enfrentar o mundo. Ela própria vende sua fotografia para o jornal para ter como sobreviver na selva de pedras que rodeava sua mansão. Ela tentou esconder ao máximo seu defeito, mas um acidente revelou seu segredo e para sua surpresa de uma hora para a outra passou a ser adorada por desconhecidos. A mídia viu na excêntrica história de vida da garota uma mina de ouro e explorou à exaustão. Com a superexposição logo ela vira uma celebridade com direito a fã clube para desespero de sua mãe que não se conforma que a filha tenha aceitado ser diferente dos outros e tirar proveito disso. Assim o roteiro de Leslie Caveny faz uma razoável crítica à ditadura da beleza, hipocrisia social e a força e manipulação dos meios de comunicação, mas como é um trabalho voltado ao público infanto-juvenil ou uma simples diversão familiar os temas não são aprofundados. De qualquer forma, o que está na tela já serve para trazer à tona importantes discussões, além de reforçar as boas e velhas lições de moral sobre respeitar o próximo, amar a si mesmo antes de cobrar a atenção dos outros e valorizar a beleza interior de cada um, temas um tanto clichês, mas ainda necessários para combater preconceitos.

Apesar de assumidamente água-com-açúcar, a estreia em longas-metragens do diretor Mark Palansky é acima da média e demonstra um apuro técnico invejável. A direção de arte nos remete com perfeição aos cenários de histórias de princesas, criando um interessante contraste visto que o casarão no melhor estilo medieval dos Wilherns está encrustado em meio à Londres contemporânea. É possível sentir o clima bucólico da residência, apesar da movimentação dos pretendentes à príncipe, e essa característica fica mais evidente quando conhecemos o quarto de Penélope, praticamente um mundo à parte, extremamente colorido, com direito a uma árvore com balanço, mas sem televisão ou computador, tudo meticulosamente pensado para a jovem se entreter e não pensar em sair de casa. Contudo, mesmo com toda superproteção, mais cedo ou mais tarde a fuga seria inevitável. Munida de um charmoso cachecol para esconder seu focinho, o que lhe permite andarilhar pela cidade à vontade com a desculpa de uma plástica frustrada, é certo que Palansky poderia ter se estendido nas experiências da moça no mundo real, porém, ele prefere revelar seu segredo prematuramente o que acaba prejudicando um pouco o clímax. O interesse só não decai por conta do carisma de Ricci que consegue equilibrar a doçura e ingenuidade típicas de princesas e a coragem e obstinação que marcam o perfil de uma heroína. Sua parceria com McAvoy não chega a ser memorável já que o personagem do rapaz é desperdiçado. Com duas identidades diferentes para defender, o ator poderia render muito mais, porém, acaba apagadinho e seus repentinos sentimentos amorosos não convencem a ponto de justificar o inerente final feliz do casal. Todavia, apesar da pouca exposição do longa, é possível se especular que seu lançamento se deve muito ao jovem ator que na época colhia elogios por O Último Rei da Escócia e Desejo e Reparação. Após o término das filmagens foram quase dois anos de pós-produção e certamente a carona no sucesso do rapaz ajudou a chamar a atenção de distribuidores interessados. Por outro lado, havia também o chamariz Reese Witherspoon, produtora do filme e que faz uma ponta como a despachada Annie, uma grande amiga que a protagonista conquista em suas aventuras londrinas. Chega a ser contraditório uma produção que critica os exageros da mídia e o culto por celebridades precisar de pelo menos um nome em evidência para conseguir ser lançada. Apesar de uma longa carreira e a eterna lembrança como a estranha e sádica garotinha de A Família Addams, Ricci não é o tipo de atriz que leva multidões ao cinema ou apontada como exemplo de beleza e Penélope seria a sua grande de chance de provar que poderia segurar um filme comercial. Seria ela vítima de algum tipo de maldição de Hollywood?

Comédia Romântica - 101 min - 2006

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