terça-feira, 8 de novembro de 2016

SONHADORA

NOTA 7,0

Drama traz mensagens edificantes
através de história sobre superação
e união, temas clichês, mas o longa
se beneficia de protagonista mirim
Você já viu esse filme. E não apenas uma vez, mas algumas dezenas de vezes. No entanto, Sonhadora poderia ser apenas mais um título em meio a tantos outros idênticos abordando a superação através do esporte ou a reunião familiar em nome de um bem em comum, mas o fato é que seu diferencial tem nome e sobrenome: Dakota Fanning. Na época uma estrela infantil em ascensão, não há dúvidas de que a publicidade deste filme, ainda que bastante discreta, só foi possível por contar com a loirinha encabeçando o elenco. Ela dá vida a Cale Crane, uma garotinha muito devota a seu pai Ben (Kurt Russell) e que tenta ficar ao máximo de seu lado, porém, encontra barreiras por parte dele. Atualmente ele é um treinador de cavalos de corrida, mas um dia já foi um grande criador de equinos junto a seu pai, Pop (Kris Kristofferson). Por anos eles se dedicaram a manutenção de um respeitado haras, mas alguns problemas levaram o negócio a falência e ocasionou brigas que os forçaram a romper relações afetivas. Ben trabalha para o inescrupuloso Palmer (David Morse), administrador da tropa de equinos de um milionário príncipe árabe que reside na cidade de Lexington, no interior dos EUA. Contudo, certa vez que se recusa a cumprir uma ordem de seu chefe acaba sendo despedido de imediato. A tarefa era sacrificar um animal que caiu durante uma corrida e feriu gravemente uma das patas dianteiras. Sonhadora, também chamada de Sonya, era uma égua com um incrível potencial, mas agora só traria prejuízos e ninguém acreditava em sua recuperação. Quer dizer, Cale alimentava esperanças. Ela não entendia porque seu pai nunca a levou para conhecer seu local de trabalho, provavelmente porque não gostava do que fazia, mas justo no dia em que realizou a vontade da filha ela presenciou o acidente. Ben havia percebido que o animal não estava com a saúde em dia, mas Palmer exigiu sua participação em uma corrida e obviamente a culpou por alguns trocados que perdeu. A garota então convenceu seu pai a não matar Sonya, assim, como parte do acordo de demissão, o treinador leva a égua para sua casa, mas ciente de que teria que investir em sua recuperação e sua futura venda traria um lucro mínimo. No fundo a intenção era apenas realizar um capricho da filha, uma maneira de demonstrar que se importava com ela, mas economizando em palavras e sentimentalismo.

Mesmo com a situação financeira difícil de sua família, Cale não se entrega a tristeza e deposita em Sonya as esperanças de que dias melhores virão e usa a recuperação do animal como uma desculpa para se aproximar do pai e por tabela força-lo a reatar os laços com Pop. Dessa forma, a égua serve como catalisadora dos problemas familiares e junto a garotinha também faz as vezes de mediadora para reestabelecer relações. Engraçado que Pop e Ben são praticamente vizinhos. O idoso mora sozinho em uma das casas que sobraram na fazenda em que funcionava o haras da família. Uma das razões para o distanciamento é que seu filho foi loteando e pouco a pouco se desfazendo da propriedade para garantir certo padrão de vida para Cale e sua esposa Lily (Elisabeth Shue). Seu atual frio relacionamento com elas de certo modo é um reflexo dessas atitudes inconsequentes, como se elas fossem culpadas por suas frustrações. Baseado em fatos reais, o roteirista e estreante na função de diretor John Gatins, autor do também emotivo Coach Carter – Treino Para a Vida, nunca quis reinventar a roda e mostra-se bastante consciente de que seu trabalho apenas copia um estilo, porém, sua simplicidade é que acaba se tornando seu charme. Talhado para ser um entretenimento familiar sadio, o longa transcorre de forma relativamente lenta, sem espaço para aventura ou comédia forçada, e sustenta-se pela forma sincera como o trio principal entrega-se à história, mesmo porque ela só ganhou sua versão cinematográfica por conta de Fanning. Embora já com uma polpuda fortuna acumulada, a garota ainda não tinha bala na agulha para bancar uma produção, mas seu nome estampando a publicidade fazia toda a diferença. O roteiro passou por diversos estúdios que o recusaram até que Gatins conseguiu se acertar com a garotinha antes mesmo de achar produtores. Acostumada a papéis de meninas mimadas ou que agem e falam como adultos, como em Guerra dos Mundos em voga na época, mas que lhe rendeu diversas críticas negativas, aqui felizmente ela se comporta como uma criança comum. Até quando se torna proprietária de Sonya e pretende colocar em prática seus planos de remanejá-la nos circuitos de corrida ela age com ingenuidade e entusiasmo condizentes com sua idade, deixando para trás a imagem irritante de alguns de seus papéis anteriores e lembrando os espectadores que apesar de seu currículo já extenso ela ainda tinha apenas 12 anos de idade. Há tempos amargando participações em produções esquecíveis, Russel também consegue dar a volta por cima. Ainda que não seja um trabalho excepcional, o ator consegue ter seus bons momentos em um papel dúbio. Ben começa o filme com certo quê de vilão, mas termina como mocinho redimindo-se de seus erros.

Além da boa parceria com Fanning, também é bem crível a relação (ou sua ausência) de Ben com o personagem de Kristofferson, o que ajuda o espectador a se envolver com o batido drama familiar. A mesma química não se pode dizer que exista com Shue, não por culpa da atriz que é talentosa, mas o problema é o espaço que o roteiro dedica a sua personagem. Por vezes ignorada pelo marido, Lily também poderia ter peso na trama e colaboração ativa na redenção do marido, mas só é lembrada no ato final para reforçar a mensagem da importância da família reunida. Até os personagens que frequentam o haras, o cuidador de cavalos Balon (Luiz Guzmán) e o jóquei Manolin (Freddy Rodriguez), ambos de origem mexicana, parecem ter uma participação maior. De qualquer forma, o filme todo se organiza em torno de Cale que somada a temática familiar e ambiente interiorano devem fazer o público mais velho se lembrar das antigas produções estreladas pelo ícone Shirley Temple, a estrela que acabou jamais envelhecendo na memória de seus fãs. Será que Fanning viverá como uma eterna garotinha com carinha de anjo no subconsciente coletivo? Bem, ela cresceu e se mantém ativa na carreira, porém, sua imagem já passa batida e seu nome não funciona mais como um chamariz. Embora o título Sonhadora obviamente se refira a égua, no fundo ele vende a personagem da atriz mirim que resgata valores e ideais perdidos, principalmente em tempos de crise. Ela sonha que seu animal de estimação vai se recuperar, sonha que os problemas de sua família com dinheiro não vão durar para sempre, sonha que seu pai e avô voltem a ter um bom relacionamento e, principalmente, sonha com sua própria felicidade que só será possível se tudo ao seu redor estiver conspirando a favor. A palavra sonho e suas variações, inclusive verbais, são repetidas diversas vezes ao longo da projeção, reforçando as mensagens positivas sobre união, confiança, perdão e tudo quanto é lição de moral e civilidade. Apesar da previsibilidade e dos vários momentos melosos, a fita mantém os pés no chão. Mesmo com um argumento limitado, tudo que se vê na tela é passível de acontecer, desde as coincidências de infortúnios até a maré de boas notícias. De quebra, a estética bucólica do campo, perfeitamente captada pela fotografia e direção de arte, trazem beleza e tranquilidade ao espectador que chega ao final com sensação de bem-estar elevada e esperanças renovadas.

Drama - 102 min - 2005

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