quinta-feira, 3 de novembro de 2016

TODO MUNDO HISPÂNICO

NOTA 4,0

Parodiando sucessos do cinema
espanhol, fita segue à risca fórmula
americana, incluindo seus defeitos,
mas até que pega leva com as piadas 
As paródias de grandes sucessos do cinema viraram febre nos EUA, tendo seu ápice com Todo Mundo em Pânico que tirava um sarro dos “slashers movies” que voltaram com tudo no final da década de 1990. A fita gerou diversas sequências, mas perdeu o fio da meada, embora ainda focando nos clichês e erros de filmes de terror e suspense. Apostando em um formato maluco para achincalhar sucessos do momento, mas sempre “homenageando” momentos marcantes de antigas produções, o liquidificador de referências inclui também piadas envolvendo escândalos e deslizes de políticos e celebridades, o que acaba deixando os filmes datados e perdendo a graça com o tempo. Alguém mais novinho hoje consegue entender logo de cara a zoeira com Tom Cruise no quarto filme da série? Ridículos, toscos, apelativos.... Já diz o ditado falem bem ou falem mal, mas falem de mim. Praticamente um subgênero no campo das comédias, esse tipo de paródia gerou inúmeros filhotes e não se pode negar que há um público cativo e elogiar a rapidez dos produtores para sacanearem sucessos quase que simultaneamente a seus lançamentos como, por exemplo, Espartalhões, que pegou carona no blockbuster 300, e Os Vampiros Que se Mordam, que bebeu no sangue da saga Crepúsculo. Vendo por esse lado, não deixa de ser curioso que até o cinema espanhol tenha se rendido à fórmula e se costumamos reclamar das traduções que os filmes ganham no Brasil, Todo Mundo Hispânico cai como uma luva. Vendendo bem seu peixe e ainda criando um vínculo explícito com sua maior fonte de inspiração, o longa de estreia do diretor Javier Ruiz Caldera não traz nada de novo em relação aos citados similares americanos a não ser o fato de ser o primeiro do tipo a deitar e rolar em cima de êxitos do cinema da Espanha que nos últimos anos tornou-se o berço do terror e suspense tendo vários profissionais importados para trabalharem em terras ianques, diga-se de passagem, trazendo um leve sopro de criatividade ao marasmo. No entanto, até os dramas latinos são zoados aqui, sobrando lembranças até ao estilo kitsch do cineasta Pedra Almodóvar. Ramira (Alexandra Jiménez) é a protagonista da película, uma bela e sensual morena cujo visual claramente é inspirado na personagem de Penélope Cruz em Volver. Por essas e outras, quem pouco conhece do cinema espanhol pode não compreender certas citações, mas em geral a diversão não fica comprometida afinal o grande barato é testar os limites da loucura que o tipo de produção permite, ainda que pegue leve com as piadas envolvendo erotismo.

A primeira inspiração óbvia vem de Os Outros, coprodução norte-americana com o cinema espanhol. Ramira é a nova governanta da mansão de Laura (Sílvia Abril), uma mulher religiosa, parada no tempo e que crias seus filhos sozinha desde a partida de seu marido Diego (Eduardo Gómez) para a guerra (detalhe uma batalha de séculos atrás), uma alusão ao épico Alatriste que, desculpe o trocadilho, é triste de aguentar. A filha Ofendia (Laia Alda) é uma referência ao brilhante O Labirinto do Fauno com direito ao próprio ser fantástico participar da narrativa desta vez invertendo o jogo de submissão com a garota. Sarcástica e lúcida, parece que só ela compreende a realidade: todos estão mortos! Laura não dá ouvidos à menina e passa o filme todo procurando seu caçula, o problemático Simeón (Óscar Lara) que sumiu logo após a chegada da nova empregada. Desconhecendo seus problemas com a sensibilidade à luz, Ramira pensando em livrá-lo de sua palidez expõe o garoto aos raios solares e ele literalmente vira um churrasquinho. Tentando esconder seu crime, ela dá uns trocados para o nanico José (José Jiménez Fernandez) se passar por Siméon aproveitando-se da distração da patroa que mal se lembra do nome do filho. Além de precisar do emprego já que seu marido Antonio (Luiz Zahera) é um vagabundo, a governanta também se afeiçoa a Pedro (Carlos Areces), o irmão de Laura condenado a viver para sempre preso a uma cama devido a um grave acidente que lhe deixou sem movimento algum do pescoço para baixo. Evocando o dramalhão Mar Adentro, ele clama pela eutanásia, mas considera uma segunda opção. Caso a morena aceite seu pedido de casamento se conformaria com seu estado vegetativo, assim ela vai levando as coisas em banho-maria e permanece na casa mesmo com o fantasma do assassinato que cometeu. Um saco de pano confeccionado especialmente para dar continuidade à farsa de Siméon faz a ponte com O Orfanato, resgatando inclusive a cena da ajuda de uma parapsicóloga para solucionar o caso quando Laura finalmente percebe que seu filho sumiu, mas ela acusa de sequestro Maligna (Teresa Lozano), sugestivo nome para uma velha senhora que esteve em sua casa com a desculpa de ser uma especialista em doenças estranhas. Ramira, por sua vez, alimenta a desconfiança obviamente.

Nesse caldeirão de citações sobram ainda piadas para títulos como Segunda-feira ao Sol, fazendo graça com os filmes ditos de arte que ganham prêmios em estranhos festivais, e não poderia faltar uma lembrança para Rec que de quebra faz troça com uma cena do próprio Todo Mundo em Pânico. Aliás, é óbvio que há alfinetadas ao cinema hollywoodiano, principalmente no ato final que manda às favas o senso mínimo que guiava à obra fazendo uma farofada para concluir toda essa loucura, resgatando inclusive a altivez do Superman dos tempos do saudoso Christopher Reeve. Falando nisso, também temos em uma pequena ponta a participação de Leslie Nielsen cuja carreira foi marcada pelo humor escrachado e suas últimas atuações se deram em tom de homenagem em paródias, uma forma de reverenciar seu talento e legado. Escrito por Eneko Lizarraga e Paco Cabezas, Todo Mundo Hispânico segue fielmente o estilo que procurou copiar. A amarração das citações cinematográficas segue a fragilidade já conhecida e a falta de conexão de muitas delas acabam sendo a graça da produção que começa em um bom ritmo, mas da metade para o final cai um pouco o interesse por conta das referências a fitas mais restritas ao território espanhol. O clímax chupado do drama Abra os Olhos, quando Pedro precisa escolher entre o amor e a vaidade, é divertido na medida do possível, mas certamente não causa o impacto esperado por sua inspiração não ser uma obra de sucesso mundial. Nem sua versão americana Vanilla Sky conseguiu cair no gosto popular. E o que dizer do elenco? Bem, ninguém espera atuações dignas de Oscar, mas até que o improvável casal Ramira e Pedro funciona graças a simpatia dos intérpretes. Aliás, a sensualidade da protagonista seria quase imperceptível, isso se não fossem as piadas envolvendo seu decote e as visões libidinosas de seu interesse romântico que a endeusa. Abril também se sai bem como uma matriarca neurótica e deve ter tido que se esforçar para não cair na gargalhada muitas vezes. Só é de se lamentar que o Fauno (Joaquín Reyes) tenha tido uma participação pequena, ainda que importante para o desfecho. O enigmático personagem poderia render muito mais assim como muitas cenas de seu filme-base poderiam ter ganhado uma versão escracho. Apesar de bem realizado dentro daquilo a que se propõe, com direito a uma trilha sonora que flerta com o caliente e o brega para ajudar no humor, é claro que esta comédia passa longe de ser algo para orgulhar a filmografia espanhola e agrada e desagrada em iguais proporções tanto quanto um similar americano. O negócio é desligar o senso de ridículo e embarcar na viagem.

Comédia - 83 min - 2009

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