sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAMINHOS DA FLORESTA

NOTA 8,0

Junção de contos de fadas tem
seus furos e equívocos narrativos, mas
carisma e talento do elenco e recursos
técnicos apurados garantem a qualidade
Espetáculos de sucesso da Broadway mais cedo ou mais tarde terão sua versão cinematográfica, isso é fato. Desde os tempos áureos dos musicais no estilo My Fair Lady, passando pelo premiado Cabaret e culminando em fracassos como Rent – Os Boêmios, projetos que migram dos palcos para as telonas sem dúvida são apostas arriscadas. Teatro e cinema, embora compartilhem características, no fundo são artes distintas, cada qual com seus encantos e recursos para fisgar a atenção de quem assiste. O que pode dar certo ao vivo pode não funcionar na versão filmada e vice-versa. Contando com o aval popular e da crítica graças ao sucesso nos palcos de muitos países, além do chamariz de narrar uma história de fácil assimilação interligando personagens e contos clássicos do universo infantil, Caminhos da Floresta parecia uma aposta segura, mas sua realização complicada se reflete claramente no resultado final. “Into The Woods” foi lançado nos teatros americanos em 1986 com a proposta inovadora de misturar várias histórias dos lendários irmãos Grimm. A adaptação cinematográfica quase três décadas mais tarde já esbarraria na questão criatividade. A saga de Shrek levou ao ápice a fórmula de reinventar e mesclar os contos de fadas e outras produções seguiram a tendência como a própria Disney que em Encantada deitou e rolou tripudiando (ainda que com classe e respeito) em cima dos próprios estereótipos que fizeram a fama do estúdio. A casa do Mickey Mouse mais uma vez banca uma brincadeira com seu portfólio neste musical que não abandona as lições de moral, mas em muitos momentos transpira originalidade e vai muito além do felizes para sempre com uma guinada tensional da trama quando achamos que estamos no clímax. Não é a toa que muitos dizem que o filme poderia ter sido dirigido por Tim Burton devido ao casamento do lúdico com o sombrio. No entanto, a produção é responsabilidade de Rob Marshall, amante dos musicais, tendo acumulado prêmios com o divertido Chicago, incluindo seis Oscars, e sofrido com as críticas ao inconsistente Nine onde os números musicais deveriam alinhavar uma trama que apesar do argumento metalinguístico, um cineasta com bloqueio criativo que busca inspiração nas mulheres que de alguma forma marcaram sua vida, revelou-se um videoclipe megalomaníaco. Nesta nova incursão no gênero, o diretor procurou se ater mais ao script original e a cantoria é parte imprescindível da narrativa substituindo vários diálogos, um tipo de armadilha que o longa supera graças ao carisma do elenco.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

BONECO DO MAL

NOTA 5,0

Inicialmente intrigante, bom
argumento aos poucos é minado por
trama repleta de clichês, situações
inverossímeis e final desconectado
Realizar um filme de terror original é uma obsessão de muitos cineastas e ao mesmo tempo uma tarefa ingrata. É provável que todos os tipos de fobias já tenham sido explorados e nos últimos anos um dos poucos cineastas a dar certa vivacidade ao gênero foi o mexicano Guillermo del Toro com suas produções esmeradas no apuro técnico e visual e seu estilo já vem fazendo escola. Boneco do Mal não é sequer produzido pelo premiado criador de O Labirinto do Fauno, mas muitas características presentes em sua filmografia compõem o universo deste trabalho calcado na mistura do lúdico com o tensional. A história tem como protagonista Greta (Lauren Cohan), uma jovem americana que está de mudanças para um antigo casarão na Inglaterra para cuidar do filho do casal Heelshire (Jim Norton e Diana Hardcastle) que viajarão em breve deixando pela primeira vez o herdeiro aos cuidados de um estranho. Na verdade, muitas moças já foram recrutadas para ocupar o cargo em outras ocasiões, mas todas foram reprovadas pelo exigente Brahms. No entanto, ele não é um garoto de verdade e sim um boneco de cerâmica no tamanho real de uma criança de oito anos que é criado como se fosse alguém de carne e osso pelos pais idosos que nunca aceitaram a morte do filho verdadeiro em um incêndio há duas décadas. A babá obviamente não leva a sério quando lhe apresentam o menino, mas muda de ideia por conta da seriedade com a qual seus patrões lidam com a situação. Quando descobre sobre a tragédia que abalou a família ela se compadece, porém, existe um motivo bem mais forte para ela aceitar uma ridícula rotina que inclui aulas de música, fazer refeições balanceadas e até dar beijinho de boa noite em um brinquedo. A moça opta pelo trabalho levando em consideração não só o polpudo pagamento, mas também o refúgio oferecido, mantendo-a bem longe de Cole (Ben Robson), seu ex-namorado que a persegue. A mansão dos Heelshire pode ter parado no tempo, mas o mundo fora dele não e é óbvio que será fácil para Greta ser localizada, tempo suficiente para ela estabelecer uma estranha relação com Brahms. É um tanto forçada a ideia de que alguém aceitaria viver em um cinzento e depressivo mausoléu, ainda mais incumbida de ingratas tarefas, mas de alguma forma Laura faz o espectador criar rápida intimidade com o bizarro universo que adentra, ainda que ela siga à risca o perfil das protagonistas de filme de terror.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

COMO VOCÊ SABE

NOTA 3,0

Aposta em comédia romântica
amparada por questões mais complexas
sobre relacionamentos frustra com sua
falta de graça e elenco mal aproveitado
James L. Brooks é um diretor, produtor e roteirista que não tem um currículo muito extenso, porém, conta com produções de prestígio. Acumulando as três funções ele foi o grande vencedor do Oscar de 1984 com o dramalhão assumido Laços de Ternura, quatro anos depois figurou com Nos Bastidores da Notícia na lista de melhores do ano abordando um triângulo amoroso em meio ao dinâmico e estressante universo do jornalismo televisivo e ainda uma década mais tarde alcançou a maturidade do seu trabalho com Melhor Impossível, fita que deu a terceira e famigerada estatueta dourada para Jack Nicholson vivendo um maníaco-compulsivo, papel de repercussão que há anos o ator não tinha o privilégio de interpretar. No entanto, entre uma produção bombada e outra, Brooks parece querer descansar diminuindo consideravelmente seu ritmo de trabalho e cada vez mais dá indícios que carece de inspiração. A comédia romântica Como Você Sabe prova isso. A trama gira em torno de Lisa Jorgenson (Reese Whiherspoon), uma jovem que desde a infância desejou se tornar uma grande jogadora de beisebol, mas os anos passaram e mesmo com todos os seus esforços não conseguiu ser chamada para as principais competições. Aos 31 anos de idade, no momento ela já é considerada velha para o esporte e sua carreira já pode ser dada como encerrada, assim ela busca consolo no amor para preencher o vazio que sua vida se tornou e acaba se envolvendo com dois rapazes completamente diferentes. Matty Reynolds (Owen Wilson) também é esportista, milionário, narcisista e metido a conquistador. Já George Madison (Paul Rudd) é um executivo que leva uma vida mais leve, é sonhador e tem como principais qualidades a humildade e a educação. Já dá para saber com quem a mocinha vai ficar, não é? Entregando o jogo logo de cara, o roteiro então se alonga além do necessário para narrar as dúvidas e confusões de uma mocinha pouco cativante e com pretendentes que não chegam a duelar fisicamente, mas suas atitudes os colocam em guerra para saber qual o mais insosso. Escrito pelo próprio Brooks, há quem defenda o texto por fugir do esquematismo das comédias românticas tradicionais onde os diálogos soam piegas e decorados, mas o realismo pretendido em diversos momentos torna a fita distante do espectador, como se os assuntos discutidos fossem pertinentes unicamente ao universo dos personagens.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

RUA CLOVERFIELD 10

NOTA  8,0

Claustrofobia, pânico, insegurança
e melancolia se misturam em suspense
que resgata de certa forma a temática e
ambientação de Cloverfield - Monstro
Lançado em 2008, Cloverfield - Monstro não faturou horrores e tampouco caiu no gosto popular, mas por outro lado conquistou a crítica especializada por conta de seu leve sopro de originalidade.O diretor J. J. Abrams, então em evidência com a repercussão do seriado "Lost", era apenas o produtor da fita, porém, seu nome atrelado certamente deu um reforço para a campanha de marketing. Com cerca de 80 minutos de duração, a obra é bastante tensa e claustrofóbica, deixando aberto o caminho para uma continuação, mas a agenda cheia do criador acabou postergando a ideia. Demorou, mas de certa forma ela foi lançada. Com argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken e roteiro final de Damien Chazelle (do premiadíssimo musical La La Land - Cantando Estações), Rua Cloverfield 10 não é exatamente uma sequência. Além de aspectos técnicos mais hollywoodianos, nenhum ator do filme anterior e nem mesmo o personagem-título dão as caras. Ainda assim, Abrams dá um jeito deste trabalho guardar certo parentesco com a produção sobre a ameaça gigantesca que assola Nova York. Enquanto a grande metrópole era destruída, nesta espécie de sequência não-oficial, conhecemos a jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que no começo do filme aparentemente está abandonando o lar e seu companheiro. Desconhecendo a situação caótica que a cidade vive, a moça pega a estrada rumo ao interior e acaba sofrendo um acidente de carro que a deixa inconsciente. Quando acorda ela se vê presa em um cômodo desconhecido e sob os cuidados do misterioso Howard (John Goodman) que lhe afirma que todo o planeta está inabitável devido a um ataque químico provocado por uma invasão alienígena. Agora um dos poucos lugares seguros seria seu "bunker", um tipo de abrigo subterrâneo preparado para proteger das piores ameaças possíveis. Por ter salvo a vida da jovem, o anfitrião deixa claro que ela precisará obedecer suas regras, assim como Emmett (John Gallagher Jr.), outro sobrevivente resgatado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O IMPOSSÍVEL

NOTA 9,0

Apesar de forçar a emoção de todas
as maneiras possíveis, através do drama
de uma família filme coloca o espectador
como personagem onipresente de uma tragédia
O título já diz tudo. Embora baseado em fatos reais, O Impossível narra uma história improvável, mas com uma essência dramática que fisga o espectador logo em seus primeiros minutos não apenas apostando no emocional, mas também reativando lembranças ou despertando curiosidades a respeito do dia 26 de dezembro de 2004. A Tailândia era agraciada com mais um belo dia ensolarado, mas poucas horas depois de encerradas as comemorações natalinas o clima de paz e harmonia fora literalmente devastado por uma tragédia da natureza. Um tsunami agitou o oceano e provocou ondas gigantescas que varreram do mapa de modestos casebres à suntuosas mansões e hotéis. Milhares de moradores e turistas vieram a falecer ou tiveram graves ferimentos, um prato cheio para qualquer cineasta trabalhar um roteiro no esquema do filme-mosaico, estilo em que diversas tramas são contadas simultaneamente podendo convergir ao final ou não. No entanto, o diretor catalão Juan Antonio Bayona, do elogiado O Orfanato, optou em sua estreia no cinemão de Hollywood por narrar o sofrimento de um grupo específico. Inspirado no drama vivido por uma família espanhola, para tornar o argumento mais universal e obviamente melhorar os lucros, os protagonistas foram substituídos por britânicos, todos com pele, olhos e cabelos claros, assim mesmo sujos e feridos suas figuras não causam tanta repulsa. Quando se juntam as centenas de sobreviventes inevitavelmente acabam se destacando na multidão, mas não vamos entrar na discussão de possíveis preconceitos, afinal o elenco é talentoso e consegue despertar a almejada piedade com a força de suas interpretações. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) planejavam férias tranquilas e divertidas junto aos três filhos, Lucas (Tom Holland), o mais velho, Thomas (Samuel Joslin) e do caçula Simon (Oaklee Pendergast), em um luxuoso resort à beira-mar, porém, mal tiveram tempo de desfrutar do local. Ondas de até trinta metros de altura atingiram tudo o que estava em seus caminhos e só conseguiram se salvar aqueles que por ventura estavam mergulhando naquele exato momento ou que foram agraciados por alguma força divina de proteção.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A BELA E A FERA (1991)

NOTA 10,0

Clássico Disney sobrevive a
ação do tempo e mantém o
frescor, a emoção e a
magia da obra intactos
A Disney sempre foi uma fértil fábrica de desenhos animados, sejam eles produções para a TV, curtas ou longas metragens. Todas as animações do estúdio foram feitas com muito capricho, mas após a morte de seu fundador na década de 1960 a empresa entrou em declínio. Hoje as produções desse tempo são lembradas com orgulho, mas na época de seus lançamentos não trouxeram bons frutos, embora o período tenha sido marcado por produções com roteiros originais ou baseados em contos pouco conhecidos. O prestígio voltou a bater na porta do estúdio em 1989 com A Pequena Sereia e embalados pelo sucesso os criadores e animadores da casa adaptaram e modernizaram outro conto clássico para as telas em seu projeto seguinte. A Bela e a Fera só por sua história e visual já merecia lugar de destaque na história do cinema, mas a obra foi além e honrou o privilégio de ocupar a vaga de 30º longa de animação da Disney. Baseado no conto homônimo escrito por Jeanne-Marie Le Prince de Beaumont, a obra alia perfeitamente romance, drama, suspense, aventura e certa dose de ousadia, além de terem sido utilizadas técnicas de computação gráfica (hoje simplórias) aliadas ao desenho tradicional para criar cada fotograma desta história que não só conquista a atenção de crianças como de adultos também. Não é a toa que se tornou a primeira animação a ultrapassar a barreira dos cem milhões de dólares nas bilheterias mundiais e foi a única a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme até 2010, quando a Academia de Cinema ampliou o número de concorrentes permitindo que um desenho animado bem sucedido ocupasse uma vaga independente de também estar entre os concorrentes em sua categoria específica. Além disso, também foi o primeiro longa animado a receber o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia e a ganhar o Annie Award.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

OUTONO EM NOVA YORK

NOTA 6,0
Fotografia, locações e
figurinos salvam produção
cujo roteiro entrega todas
as emoções logo no início
Richard Gere já estrelou produções de diversos gêneros, mas é praticamente um sinônimo de filmes românticos, tal qual Julia Roberts também tem uma imagem significativa ligada ao gênero. Ambos explodiram juntos na comédia romântica Uma Linda Mulher e quase uma década depois voltaram a se unir, sem fazer tanto barulho, em Noiva em Fuga. Além destas duas produções, o ator participou de diversos outros filmes feitos especialmente para agradar o público feminino, como Dança Comigo?, mas nem sempre conseguiu êxito investindo em terreno seguro, como prova o esquecido Dr. T e as Mulheres. O caso de Outono em Nova York fica em cima do muro. É um daqueles títulos que tem suas qualidades, como uma belíssima fotografia e locações, conta com um enredo agradável, porém, faltam um ou mais ingredientes para transformá-lo em algo acima do regular. Apostando em um romance com pitadas de drama, este segundo trabalho da atriz Joan Chen como diretora chega a um resultado tão frio quanto a própria passagem que serve de pano de fundo para uma história bonitinha e sem grandes pretensões que mostra o nascimento de uma relação amorosa entre um homem mais velho e uma jovem. Will Keane (Gere) é um cinquentão que prometeu a si mesmo nunca mais ter um compromisso sério com uma mulher, assim ele paquera a vontade e cultiva sua fama de conquistador. Quando ele conhece a delicada Charlotte Fielding (Winona Ryder) logo se interessa em viver um romance com a moça, mas talvez não imaginasse que ia acabar se envolvendo tanto com ela. Disposto a esquecer de sua promessa, Keane se surpreende com a recusa da parceira em tornar o caso deles em algo para valer e que dure para sempre. Bem, não é preciso muitos minutos de projeção para descobrir qual o motivo do impedimento e para começar a choradeira. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

2012

NOTA 6,0

A Terra é destruída em
mais um filme sobre
catástrofes naturais, neste
caso com base em crendice
21 de dezembro de 2012. Esta foi uma data que nos últimos tempos assombrou muita gente. Bem, se você estiver lendo esta crítica após o dia 22, pode estourar o champanhe e comemorar: você sobreviveu à profecia apocalíptica maia. Séculos atrás este lendário povo deixou escrito o calendário de milhares de anos à frente, mas os escritos acabam justamente na data mencionada. Desde então astrólogos, religiosos, sensitivos, cientistas, geólogos, autoridades e pessoas de muitas outras áreas passaram a estudar o que isso poderia significar e muitos concluíram que esse seria o dia da extinção da humanidade através de eventos que alterariam drasticamente clima, relevo, direção dos ventos, força das águas entre outras coisas relacionadas à fúria da natureza. Baseando-se nesta impactante crença, muitos produtores trataram de explorar o tema, mas a grande produção batizada óbvia e simplesmente de 2012 foi criada pelo diretor Roland Emmerich. Ninguém melhor que ele que já convocou extraterrestres para acabar com os EUA (Independence Day), trouxe um mega lagarto de terras orientais para arrasar territórios ocidentais (Godzilla) e que mostrou a revolta da natureza contra os maus-tratos que recebe dos humanos (O Dia Depois de Amanhã) para se encarregar de dar o ultimato à população da terra. A trama roteirizada por Harald Kloser em parceria com Emmerich começa em 2009 quando o cientista indiano Satnam Tsurutani (Jimi Mistry) descobre que em poucos anos algumas alterações nas explosões solares esquentariam o núcleo do planeta, assim provocando diversas catástrofes naturais. O governo dos EUA fica sabendo disso através do geólogo Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor) e logo passa a estudar medidas para evitar o pior. Porém, o profissional erra nas contas e as catástrofes anunciadas começarão antes do previsto. Já em 2012, o divorciado e fracassado escritor Jackson Curtis (John Cusack) está em meio a uma viagem com os filhos para tentar reconquistar o afeto deles. Quando vai acampar, ele recorda de momentos que viveu com Kate (Amanda Peet), mas divide seu tempo ouvindo as teorias paranoicas de Charlie Frost (Woody Harrelson), um sujeito que acredita piamente nas lendas sobre o fim do mundo. Curtis não dá bola para tais ideias, porém, não demora a mudar sua opinião.

domingo, 18 de dezembro de 2016

LINHAS CRUZADAS

Nota 4,0 Velho argumento da reunião familiar em momento difícil neste caso não dá linha

Uma atriz balzaquiana sinônimo de comédias leves. Uma veterana premiada e com boa aceitação junto ao público feminino aqui também atacando como diretora. Uma jovem em ascensão em um seriado de TV e buscando seu espaço no cinema. No comando do texto uma roteirista experiente com temáticas que aliam comédia, drama e romance. De quebra, um conflito familiar de fácil identificação e uma pequena dose de clima natalino no ar. Linhas Cruzadas tinha os ingredientes básicos para cair nas graças da mulherada, no entanto, a receita desandou. Aqui o humor existe, mas é diluído em diversas sequências lacrimejantes. Frustrações, alegrias e sonhos desperdiçados são colocados em pauta quando três irmãs forçosamente se reencontram por conta da iminente morte do pai. Baseado no livro "Hanging Up" escrito por Delia Ephron narrando suas próprias memórias familiares, a trama tem como protagonista Eve (Meg Ryan), uma mulher que desdobra-se para dar conta do seu trabalho e de cuidar da casa, do marido e do filho pequeno, no entanto, nos últimos anos tem praticamente abdicado de seus afazeres para cuidar pai idoso. Lou Mozell (Walther Matthau) está com a saúde bastante debilitada e com problemas de memória e precisou ser internado em uma clínica, assim sempre que o telefone toca sua filha já aguarda por más notícias, mas quando não é seu próprio pai ligando para dizer impropérios são suas irmãs que estão na linha. Na verdade quase sempre é Eve quem tenta manter contato com elas que fazem de tudo para se esquivarem de qualquer tipo de compromisso com o idoso. A caçula Maddy (Lisa Kudrow) é uma atriz frustrada e que também não tem sorte na vida amorosa enquanto Georgia (Diane Keaton), a mais velha, é uma solteirona, porém, bem sucedida editora de revistas que só pensa no trabalho. Embora não morem juntas, ambas são de certa forma dependentes de Eve que aproveitando a situação delicada do pai vai tentar reatar os laços familiares e desfazer mal entendidos do passado.

sábado, 17 de dezembro de 2016

O BARBEIRO

Nota 1,0 Apesar do bom argumento, longa é uma tremenda enrolação para explicar o óbvio

Em um filme cujo enfoque é a investigação de assassinatos o mínimo que se espera é uma trama bem amarrada que nos instigue a brincar de detetive, mesmo que no final das contas a identidade do criminoso seja a mais óbvia. De qualquer maneira, se o tempo dedicado a essa brincadeira for de qualidade isso compensa um pouco a frustração da conclusão. E qual seria o atrativo de uma produção do tipo cujo vilão já sabemos de antemão sem precisar assistir uma única cena? A fita O Barbeiro só pelo título já entrega o ouro, mas poderia ao menos reservar uma trama que tentasse jogar a culpa em cima de outros suspeitos ou quem sabe fazer aquele jogo em que a plateia sabe de tudo, mas os demais personagens não, assim criando aquela angústia de nos sentirmos impotentes diante de uma situação tão óbvia enquanto o verdadeiro assassino se diverte. O diretor Micheal Bafaro é preguiçoso e desde a primeira aparição do personagem Dexter Miles (Malcolm McDowell) deixa claro que ele não é flor que se cheire. Muitas de suas aparições ilustram narrações em off, na verdade seus pensamentos maquiavélicos, críticos e sarcásticos. O efeito inicialmente parece mesmo corresponder as expectativas de que o público está sendo convidado a ser cúmplice de suas ações, mas a partir do momento que frases comprometedoras começam a sair de sua boca em alto e bom som para quem quiser ouvir o interesse na fita cai totalmente. O criminoso está praticamente se entregando e quem ouve faz cara de paisagem. A trama escrita pelo próprio diretor em parceria com Warren Low se passa em Revelstoke, uma pequena e pacata cidade no Alasca que é tão insignificante que nem aparece na maioria dos mapas dos EUA. Sofrendo com invernos rigorosos e com dias em completa escuridão tal qual a noite, as pessoas que visitam o local chegam a compará-lo a uma prisão perpétua, mas os pouquíssimos moradores já se acostumaram com a ambientação tranquila, porém, a morosidade é quebrada quando é achado o corpo de Lucy Waters. Assim que a notícia chega ao único salão de barbearia da cidade o mistério para o espectador já acaba. Em pensamento, Dexter entrega que jamais esperava que achassem os restos da mulher tão rapidamente. Depois de tal revelação o que esperar?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A COLINA ESCARLATE

NOTA 9,0

Inspirado na cultura gótica e com
estética de filme antigo, obra é um
espetáculo visual, mas narrativamente
mostra-se limitada e até previsível
O cineasta Guillermo del Toro é um visionário, não há dúvidas. Como ele poucos conseguem equilibrar conteúdo narrativo com estética que ultrapassa os limites da imaginação. Transitando entre o cinema independente, como no suspense A Espinha do Diabo, e os blockbusters americanos, como na aventura Círculo de Fogo, o mexicano consegui um perfeito híbrido de estilos com sua obra-prima O Labirinto do Fauno, mescla de drama, fantasia e terror na qual os atributos técnicos não apenas saltam aos olhos, mas reforçam suas importâncias para contar uma boa história. Seguindo a mesma linha de raciocínio, A Colina Escarlate é um leve sopro de criatividade e bom gosto em meio ao combalido, e por vezes grosseiro, gênero do terror. Projeto acalentado por mais de uma década, o longa é calcado no estilo gótico e uma declaração de amor ao estúdio Hammer, berço das produções de horror entre as décadas de 1950 e 1970. Não por acaso o cenário principal é um suntuoso casarão envolto em aura de mistério e melancolia, algo ressaltado pela fotografia propositalmente envelhecida. A opção além de colaborar para o clima de tensão constante, também destaca os elementos em vermelho carregados de mensagens subliminares. À primeira vista a trama é bem simplória evocando o tema-clichê da casa mal-assombrada, porém, como a protagonista Edith Cushing (Mia Wasikowska) deixa claro em sua narração, esta não é uma história sobre fantasmas e sim uma trama com a presença de seres do além, uma sutil diferença na forma de se expressar, mas que faz toda a diferença narrativamente. Ela é uma jovem aristocrata americana aspirante a escritora devota ao pai, o Sr. Carter (Jim Beaver), e que se apaixona pelo misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um lorde que apesar da banca de ricaço na verdade está praticamente falido e busca alguém para financiar um projeto envolvendo a extração de uma argila vermelha encontrada sob o solo de sua residência na Inglaterra. Não demora muito e o rapaz desposa a garota e a leva para viver em sua decadente mansão localizada na tal colina que dá nome à fita, porém, o casal terá que dividir sua privacidade com Lucille (Jessica Chastain), a irmã mais velha dele, uma mulher com personalidade tão fria quanto a casa em que vive. Ela simplesmente ignora todas as iniciativas da cunhada para serem amigas e de certa forma parece exercer algum poder controlador sobre Thomas, o que leva Edith a acreditar que os irmãos possuem algum segredo em comum.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AMERICAN PIE - A PRIMEIRA VEZ É INESQUECÍVEL

NOTA 8,0

Com argumento simples e piadas
inteligentes aliadas à escatologia leve,
comédia é um registro dos teens pré-virada
do milênio revelando seus anseios e dúvidas
No início da década de 1980 a comédia Porky's causou frisson por ser uma fita voltada ao público adolescente e que com muito humor e descaradamente falava sobre sexo, mais especificamente sobre a descoberta dele por um grupo de jovens. Expectativas e frustrações em meio a muita confusão marcaram toda uma geração, tanto que gerou mais duas continuações e influenciou várias outras comédias teens como O Último Americano Virgem e A Primeira Transa de Jonathan. De sacanagem literalmente, em menor ou maior intensidade, é que tais fitas se sustentavam. Para alguns puritanos certamente era o apocalipse ver em cena jovens discutindo sem pudor sobre a necessidade de perder a virgindade e a colocando em jogo como um prêmio de aposta. Com o tempo a temática caiu em desuso, mas eis que as vésperas do novo milênio ela ressurgiu com American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível, virando uma febre imediata entre os adolescentes, afinal entre dúvidas quanto a profissão a escolher, arranjar um emprego ou convencer os pais a lhe dar um carro, sem dúvidas a questão de até quando permanecer intacto é o que mais os perturba. É esse o grande dilema vivido por Jim (Jason Biggs) que está naquela fase em que só pensa naquilo. Ele tenta aliviar seu problema com constantes sessões de masturbação, mas vive metendo os pés pelas mãos. Melhor dizendo, no caso ele mete o pênis em meias, travesseiros e até dentro de uma suculenta e macia torta de maçã, daí a justificativa do título, e quase sempre é flagrado por alguém. O mesmo dilema vem tirando o sono de seus amigos Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Ian Nicholas) e Finch (Eddie Kaye Thomas). Prestes a se formarem no segundo grau (para nós o ensino médio) eles estão pouco se lixando para as provas finais e firmam um pacto de que todos vão perder a virgindade, ou alcançar o Santo Graal como gostam de dizer para dar um sentido mais nobre a missão, até a noite do baile de formatura. Detalhe, tem que transar com o consentimento das garotas, não podem ser prostitutas.

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