quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

COMO VOCÊ SABE

NOTA 3,0

Aposta em comédia romântica
amparada por questões mais complexas
sobre relacionamentos frustra com sua
falta de graça e elenco mal aproveitado
James L. Brooks é um diretor, produtor e roteirista que não tem um currículo muito extenso, porém, conta com produções de prestígio. Acumulando as três funções ele foi o grande vencedor do Oscar de 1984 com o dramalhão assumido Laços de Ternura, quatro anos depois figurou com Nos Bastidores da Notícia na lista de melhores do ano abordando um triângulo amoroso em meio ao dinâmico e estressante universo do jornalismo televisivo e ainda uma década mais tarde alcançou a maturidade do seu trabalho com Melhor Impossível, fita que deu a terceira e famigerada estatueta dourada para Jack Nicholson vivendo um maníaco-compulsivo, papel de repercussão que há anos o ator não tinha o privilégio de interpretar. No entanto, entre uma produção bombada e outra, Brooks parece querer descansar diminuindo consideravelmente seu ritmo de trabalho e cada vez mais dá indícios que carece de inspiração. A comédia romântica Como Você Sabe prova isso. A trama gira em torno de Lisa Jorgenson (Reese Whiherspoon), uma jovem que desde a infância desejou se tornar uma grande jogadora de beisebol, mas os anos passaram e mesmo com todos os seus esforços não conseguiu ser chamada para as principais competições. Aos 31 anos de idade, no momento ela já é considerada velha para o esporte e sua carreira já pode ser dada como encerrada, assim ela busca consolo no amor para preencher o vazio que sua vida se tornou e acaba se envolvendo com dois rapazes completamente diferentes. Matty Reynolds (Owen Wilson) também é esportista, milionário, narcisista e metido a conquistador. Já George Madison (Paul Rudd) é um executivo que leva uma vida mais leve, é sonhador e tem como principais qualidades a humildade e a educação. Já dá para saber com quem a mocinha vai ficar, não é? Entregando o jogo logo de cara, o roteiro então se alonga além do necessário para narrar as dúvidas e confusões de uma mocinha pouco cativante e com pretendentes que não chegam a duelar fisicamente, mas suas atitudes os colocam em guerra para saber qual o mais insosso. Escrito pelo próprio Brooks, há quem defenda o texto por fugir do esquematismo das comédias românticas tradicionais onde os diálogos soam piegas e decorados, mas o realismo pretendido em diversos momentos torna a fita distante do espectador, como se os assuntos discutidos fossem pertinentes unicamente ao universo dos personagens.

O triângulo amoroso não é exatamente o problema da fita, ainda que ele não seja bem estabelecido por falta de cenas em que os três lados se confrontem frente a frente, mas o que causa uma ruptura com a atenção do espectador é a trama paralela envolvendo George. O jovem executivo vive à sombra do pai, o magnata Charles (Jack Nicholson), mas de uma hora para a outra descobre-se em meio a um turbilhão ao ser apontado em uma investigação criminal como principal suspeito de práticas fraudulentas usando como escudo a empresa da família. Para completar, ele é abandonando pela namorada neste momento difícil e assim ele próprio é quem tenta uma aproximação de Lisa em um bizarro encontro no qual jantam em absoluto silêncio, mas a beleza da jovem é a tradução perfeita para a máxima de que uma imagem vale mais que mil palavras, vamos interpretar dessa forma. Assim como ela, o rapaz aparentemente também busca mais um consolo que um amor de verdade neste momento. Na realidade ambos buscam algo para nortear, dar um sentido para suas vidas, mas apesar da identificação de conflitos o envolvimento entre a ex-esportista e o empresário carece de emoção, tempero que Brooks tenta adicionar em altas doses no final com diálogos sentimentalistas ao extremo. Nessa forçada de barra, algumas cenas parecem esquetes de programa de humor de gosto duvidoso. Por exemplo, a certa altura Annie (Kathryn Hann), a secretária de George inserida apenas como ouvinte passiva de seus dilemas, tem um bebê e em uma cena longa e desnecessária é lançada a dúvida de que Charles poderia ser o pai, ideia rapidamente descartada, e todo um discurso sobre amor e felicidade é exposto de maneira vexatória. A declaração seria gravada como recordação de seus pais à criança, mas o embasbacado George ao lado de uma Lisa mais perdida ainda esquece de ligar a câmera e novamente a cena é refeita a toque de caixa. Parece que o pessoal da edição se confundiu e adicionou materiais extras de um DVD no meio do filme original. Antes fosse isso mesmo, mas é preciso admitir que Brooks sem ter bem definido seus propósitos se entrega a inúmeras sequências vazias para rechear uma fita cuja duração se estende muito além do necessário. Com material mais condensado talvez esta comédia romântica pudesse agradar a um público mais restrito, mas jamais as plateias genuínas do gênero que buscam humor visual e explosão de sentimentalismo. Quase como um Woody Allen, guardada as devidas proporções, Brooks tem interesse em compreender as complexidades dos seres humanos e suas relações em sociedade e é reconhecido por suas habilidades em trafegar entre o drama e a comédia, mas neste caso tais qualidades desapareceram.

A direção pouco inspirada certamente se deve a reflexos de um roteiro mau estruturado sustentado por personagens que não cativam. O próprio elenco parece desmotivado, simplesmente repetindo diálogos sem deglutir emoções. Lisa poderia ser um personagem dos mais interessantes fugindo dos estereótipos das mocinhas do gênero. A começar pela carreira que escolheu, embora um gancho explorado com preguiça e que não justifica seu abalo emocional diante da aposentadoria precoce, determinação, coragem e ousadia deveriam ser suas marcas registradas, mas não é assim que a percebemos. O esporte poderia ter ajudado a construir uma personalidade mais durona, sendo que seu sentimentalismo é expressado de maneira reservada através de recadinhos que deixa para si própria no espelho do banheiro, mas a ausência de planos profissionais paralelos e a maneira inerte como encara os relacionamentos amorosos transparecem a má construção da personagem. Neste caso nem o carisma de Whitherspoon salva Lisa das críticas. Sua escalação, assim como de seus parceiros, não deve ser mera coincidência de agendas. O trio ajudou a enraizar e perpetuar fórmulas para comédias românticas e talvez a ideia é que aqui trouxessem um pouco mais de realismo ao gênero, o que passou longe de ser atingido. Wilson mais uma vez tem em mãos o perfil de um marmanjo que só pensa em mulheres e curtição, mas de uma hora para a outra Brooks nos força a crer na transformação do rapaz. De garanhão inveterado ele se torna um romântico doentio, uma mudança inverossímil até porque Lisa não mexe um palmo sequer para receber tanto amor. Como diz o ditado, amor com amor se paga, o que não é o caso. Mesmo assim o loiro se sai bem com seu tipo cafajeste e nos convence de que mesmo usando as mulheres descaradamente jamais quer machucá-las e a maioria compreende seu jeito de ser. Já Rudd empresta inocência e carisma a seu empresário que não demonstra menor aptidão para os negócios, mas exala sinceridade quanto a seus sentimentos pela mocinha, uma composição que nos faz lembrar bastante aos antigos trabalhos do inglês Hugh Grant. Por fim, Nicholson, já em ritmo de aposentadoria, deve ter aceito o trabalho apenas em consideração a amizade com o diretor. Os seus conflitos com o filho por motivos profissionais só tornam o enredo ainda mais enfadonho. É uma pena que Como Você Sabe desperdice um elenco de peso e um enredo em teoria interessante e de possibilidades, mas a julgar pelo estranho título (indagação ou afirmação?) que não explica nada já era de se esperar algo esquecível.

Comédia romântica - 121 min - 2010

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