quinta-feira, 18 de maio de 2017

A FAMÍLIA BÉLIER

NOTA 8,0

Apesar de não se aprofundar, longa francês
acerta ao abordar a realização de um
sonho estendendo a discussão sobre como
tal decisão pode afetar outras pessoas
Uma garota descobre por acaso seu talento para a música, mas para poder viver de seu dom terá de enfrentar diversas dificuldades, incluindo romper laços afetivos e afins. Hollywood há décadas aproveita tal argumento, principalmente para abastecer o entretenimento doméstico, um jeito fácil e barato que antes abastecia videolocadoras e hoje preenche a programação dos canais por assinatura. A tática também é utilizada quando há o desejo de lançar como atriz uma já famosa cantora. Mariah Carey, Britney Spears e Christina Aguilera tentaram carreira nas telonas, mas felizmente parecem ter tido noção da extensão de seus talentos e desistiram a tempo de evitarem ser alvo de eternas chacotas. Outras já tiveram mais sorte em transitar entre a música e o cinema como Cher, Beyoncé Knowles e Madonna, ainda que a diva loura colecione alguns lampejos de sucesso como atriz em meio a diversos fracassos. Filmes cujo real objetivo é promover cantoras dificilmente não deixam de ser meros passatempos esquecíveis desde sua concepção inicial, mas eis que diretamente da França chega uma agradável surpresa desta seara. A simpática comédia-dramática A Família Bélier ganha pontos em diversos quesitos, entre eles o elenco afiado e a narrativa que, embora não seja original, não se restringe a realização de um sonho individual, lançando um olhar mais amplo ao abordar as consequências de uma decisão para toda uma família. A trama tem como protagonista Paula, interpretada por Louane Emera que ficou famosa em território francês por participar do programa local "The Voice". A personagem vive em uma pequena cidade do interior e ajuda a família a cuidar da fazenda de onde tiram o próprio sustento. Mais do que ordenhar vacas ou semear pastos, a garota é quem faz o elo entre seus parentes e a sociedade. Rodolphe (François Damiens) e Gigi (Karine Viard), seus pais, e também Quentin (Luca Gelberg), seu irmão caçula, são surdos-mudos e Paula atua como intérprete se encarregando de traduzir a linguagem de sinais para amigos e vizinhos, além de mediar as negociações das vendas dos queijos que eles próprios produzem. Contudo, sua voz tem potencial para algo muito maior.

Apaixonada por música, e a forma que encontra para fugir da dependência familiar, Paula decide participar do coral da escola para se aproximar de Gabriel (Ilian Bergala), garoto que ama em segredo, mesmo sendo completamente ignorada por ele. Porém, o Sr, Thomasson (Eric Elmosnino), um frustrado professor de música, percebe seu potencial e a incentiva a concorrer a uma vaga em uma conceituada escola de canto em Paris, mas para a garota tal mudança não se resume a algumas horas de viagem do interior até a capital da França. Escolher o caminho da música representaria de certa forma cortar laços afetivos com sua família, estes que naturalmente se preocupam com os rumos da jovem sem deixar de incentivá-la, mas como convencer os pais que é uma cantora promissora se eles não podem usufruir de seu talento? Com um argumento relativamente simples em mãos, a roteirista Victoria Bedos, em parceria com Thomas Bidegain e Stanislas Carré de Malberg, consegue construir uma deliciosa e envolvente narrativa na qual há o perfeito casamento entre o humor e o drama. Retratar pessoas com qualquer tipo de deficiência não é uma tarefa fácil por conta das armadilhas dos excessos. Da piedade em exagero ao mau gosto de se aproveitar de piadas preconceituosas e debochadas, muitas produções acabaram prestando um desserviço social apenas reiterando ou piorando a imagem frágil dos deficientes que erroneamente muitos ainda preservam. Já está mais do que provado de que ser surdo, cego, mudo, não poder andar ou movimentar os braços são apenas condições, mas não motivos para invalidez. Todos tem algum talento ou aptidão. Felizmente o diretor Eric Lartigau lança um olhar absolutamente naturalista sobre o assunto e passa longe de retratar os Béliers como vítimas. Se no cinemão americano o lema é emocionar custe o que custar espremendo até o impossível da temática, o cinema francês tem essa característica de abordar doenças e afins de maneira mais realista e nos últimos anos tem se especializado em tratar tais assuntos com certa dose de humor atrelada a respeito, como no caso do sucesso Intocáveis.

Lartigau também acerta na ambientação. Ajudado por uma fotografia e direção de arte propositalmente em tons pasteis, a atmosfera rural traz certo bucolismo, mas deixa para trás a imagem de uma região monótona e parada no tempo. O ambiente escolar trata de reforçar a conectividade da trama com sua época através dos diálogos rápidos e repletos de gírias, trilha sonora descolada e jovens trocando ideias sobre cultura pop e com os hormônios a flor da pele. Dá até a impressão de que a qualquer momento vai surgir estrelinhas pop como Miley Cyrus ou Justin Bieber, mas felizmente desde o início o longa francês mostra mais complexidade do que os tradicionais filmes que se apoiam exclusivamente em um talento providencial de seus protagonistas, não por acaso geralmente estrelas em ascensão no mundo fonográfico. Ok, Emera vem desse universo, algo que também aconteceu, por exemplo, com a premiada Jennifer Hudson que também é egressa de um reality musical e roubou a cena em Dreamgirls - Em Busca de Um Sonho. A francesinha demonstra em sua estreia também ter um futuro promissor, ainda que fique devendo em cenas que lhe exigiam mais dramaticidade. Mesmo assim ela obviamente brilha nos momentos em que usa seus dotes vocais e conquista o espectador facilmente com seu carisma e autenticidade, até porque de certa forma a história ficcional traça um paralelo com a vida real. Tanto Paula quanto Louane estão trabalhando para conquistar e manter seus espaços, mas a personagem tem o peso extra de lidar com a citada frustração de sua própria família não ter conhecimento de sua bela voz. É interessante que nos diálogos gestuais entre Rodolphe e Gigi, todos devidamente legendados, eles compartilham seus medos, mas estão sempre prontos a oferecer suporte como amorosos pais que são. Aliás, tais traduções revelam ótimas conversas, pensamentos e através do patriarca dos Béliers trazem uma deliciosa ironia. Com ambições de se candidatar à prefeitura da cidade, mas obviamente encontrando restrições, ele expressa o que vem à sua cabeça sem pestanejar, inclusive atacando seu adversário político, porém, seus pensamentos são sempre amenizados nas traduções públicas. A deficiência dos personagens é retratada de forma tão natural que é até difícil acreditar que apenas o jovem Gelberg de fato não fala e tampouco ouve. Ao abordar como a protagonista lida com suas origens, ou seja, tudo que diz respeito a seu clã, antes de colocar seu sonho em primeiro lugar, A Familia Bélier se destaca por fugir do lugar-comum, mas aos poucos o que parecia um argumento simplório revela-se bastante complexo para um projeto estilo sessão da tarde. Sentimos que os personagens e situações poderiam ser melhor explorados, como o tal gancho político que a certa altura é ignorado, mas ainda assim esta produção é um achado, um delicioso programa familiar e que leva reflexão de maneira natural e descontraída.

Drama - 106 min - 2014

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