terça-feira, 8 de agosto de 2017

O MISTERIOSO CASO DE JUDITH WINSTEAD

NOTA 3,0

Apesar da boa proposta, montar um
documentário com edição de imagens de
um caso de possessão demoníaca,
fita entedia com ritmo lento e poucos sustos
Zumbis, assassinos mascarados, monstros, casas assombradas, eventos sobrenaturais... O gênero terror possui diversas vertentes e é interessante que os estilos e temas acabam marcando determinadas épocas. A década de 1980 ficou rotulada pelas fitas de horror trash, a década seguinte pelo revival dos seriais killers e os anos 2000 pelo ápice do cinema gore. Em paralelo as vísceras expostas e torturas sem limites, os primeiros anos do novo milênio também serão lembrados por uma técnica em específico que se encaixa em todos os estilos citados no início: o found footage. Compilação de imagens de vídeos caseiros, o recurso caiu como uma luva para ajudar a contar histórias de arrepiar supostamente reais, mas tudo que é demais não tarda a enjoar. Desde o final de 1999 quando A Bruxa de Blair causou frisson e faturou alto vendendo a ideia de um filme exclusivamente editado a partir de fitas encontradas em uma floresta onde adolescentes desapareceram, muitas outras produções tentaram repetir o sucesso imbuídos do espírito altruísta de que para fazer cinema basta uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. A realidade não é tão fácil assim e com exceção de Atividade Paranormal filmes do tipo costumam dar prejuízos o que nos leva a questionar o porquê de alguns diretores ainda apostarem no estilo. O Misterioso Caso de Judith Winstead procurou dar um gás para à técnica assumindo a identidade de um documentário, mas para um filme cujo principal objetivo é aterrorizar o espectador o casamento de gêneros falhou. Fora um ou outro momento, no geral não impacta e tampouco assusta na medida necessária. Acompanhamos com tédio a história escrita e dirigida por Chris Sparling, do pouco visto Enterrado Vivo, apesar de seus esforços para oferecer algo diferenciado.  A trama nos apresenta o Dr. Henry West (Willian Maphother), cientista que em meados da década de 1970 criou o Instituto Atticus, local para estudos psicológicos voltado para pessoas com habilidades especiais.  Muitos pacientes foram submetidos a diversos testes para verificação de atividades paranormais, alguns poucos casos de fato comprovados e tantos outros considerados fraudes, mas nenhum deles desafiou tanto a equipe médica quanto o episódio da jovem do título.

Interpretada por Rya Kihlstedt, Judith foi abandonada pelos próprios familiares na instituição cansados com de seu comportamento agressivo e insensato. O caso imediatamente conquista o interesse de West e seus companheiros de trabalho que acreditam que finalmente poderão provar que há pessoas que nascem com dons especiais. O problema é que a jovem de fato é vítima de manifestações sobrenaturais negativas, uma real possessão demoníaca que não demora a fugir do controle dos cientistas, dentro e fora do instituto. Inevitavelmente os acontecimentos dos testes feitos na clínica acabam vazando e chegam ao conhecimento do governo norte-americano que intervém drasticamente nas pesquisas com o apoio do Departamento de Defesa querendo dominar Judith. Aproveitando-se de seus supostos poderes mediúnicos, a ideia seria transformá-la em uma arma viva para ser usada durante a Guerra Fria. Quarenta anos mais tarde os registros fotográficos e gravações em vídeos dos testes veem à público em forma de um documentário alinhavado por depoimentos de quem vivenciou de perto o êxtase dos experimentos e ao mesmo tempo os perigos de não saber lidar com forças sobrenaturais. E não se trata de um recurso de metalinguagem com um filme dentro de outro. Assim como o citado A Bruxa de Blair, esta produção é uma edição de supostos registros visuais de um fato bastante intrigante, porém, tudo invenção da fértil mente de Sparling. Sim, apesar de no início aparecer uma mensagem por escrito nos induzindo a acreditar estarmos prestes a acompanhar os relatos de um fato verídico, Judith Winstead na verdade é uma personagem fictícia, embora certamente tudo o que vivenciou na clínica sejam eventos baseados em histórias reais de pessoas submetidas a severos e invasivos testes em uma época em que a ciência caminhava a passos largos, mas ainda muita coisa ilegal era feita por debaixo dos panos e com humanos sendo usados como cobaias tal qual animais. O próprio lançamento acanhado diretamente para o consumo doméstico denuncia a farsa. Se realmente fosse a compilação de vídeos caseiros reais comprovando teorias sobre possessão demoníaca, os produtores teriam uma mina de ouro em mãos e não deixariam o filme passar em brancas nuvens.

Contudo, Sparling não apostou nem mesmo em uma campanha de marketing criativa. Antes de chegar aos cinemas a história da bruxa que habitava a floresta da isolada cidade de Blair, por exemplo, ganhou uma eficiente propaganda através de um site que oferecia um histórico sobre a feiticeira, contando os pormenores de suas origens e atos macabros, o que ajudou a aguçar a curiosidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Só depois do lançamento, após muitas especulações e milhões arrecadados, é que seus realizadores assumiram a jogada publicitária. Vendido como registro do único caso de possessão demoníaca de fato confirmada pelo governos EUA (quantos filmes já se gabaram também disso?), O Misterioso Caso de Judith Winstead falha ao simplesmente jogar na tela a personagem-título sem lhe sustentar com algum background e acaba tendo seu desenvolvimento prejudicado com as limitações impostas pelo formato escolhido de documentário. Seguindo um molde consagrado pela televisão, a produção exagera na inserção de depoimentos e acaba desviando o foco do espectador do que realmente importa. Quando os experimentos com a protagonista são retomados, o nível de tensão está normalizado e precisamos de um reaquecimento. Os clímax das cenas constantemente são abortados pelas entrevistas, diga-se de passagem, a maioria desnecessária e com atores inexpressivos ou exagerados, e assim nunca chegamos a sentir medo real, a cadência emocional está sempre em cima do muro e nunca chega ao ápice de tensão. Assim, cenas explorando os testes parapsicológicos e manifestações do tal poder de Judith são apresentadas com tempo reduzido e acabam não ganhando o destaque necessário. Ainda assim, Kihlstedt eclipsa com sua entrega ao personagem, com olhares e trejeitos com os quais parece verdadeiramente incorporar alguma entidade. No geral, apesar dos esforços para reconstituição de época, como a imagem dessaturada e edição amadora, alguns detalhes técnicos fazem as boas intenções caírem por terra, como a sonorização perfeita e enquadramentos que não seriam possíveis com uma câmera da época ou sua disposição para filmagem, assim a fita acaba sendo mais interessante por sua proposta do que por sua realização em si, principalmente por conta do roteiro que fica devendo sustos e exagera na morosidade.

Suspense - 83 min - 2015

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