quinta-feira, 17 de agosto de 2017

UM AMOR DE VIZINHA

NOTA 4,0

Colocando novamente dois grandes
astros na condição de protagonistas,
romance não foge do convencional e nem
oferece oportunidades para brilharem
Michael Douglas e Diane Keaton já foram nomes disputadíssimos por diretores. Cada um com uma estatueta do Oscar em casa e com alguns sucessos de público e crítica nos currículos, é uma pena que nos últimos anos tenham sofrido com o preconceito da idade. A aura brilhante que carregavam pouco a pouco minguou e com os convites cada vez mais escassos se viram obrigados a aceitar participar de qualquer bobagem. Não que precisassem de dinheiro, mas para continuarem a se sentirem vivos e com dignidade, mesmo que fossem relegados a papéis coadjuvantes e muitas vezes desnecessários. O primeiro e tardio encontro da dupla em Um Amor de Vizinha os elevou novamente a condição de protagonistas, porém, um projeto apagadinho e que não oferece a oportunidade de mostrarem que o físico de um ator obviamente envelhece, mas seu talento permanece intacto ou até aperfeiçoado. Nesta comédia romântica voltada para a terceira idade Douglas vive Oren Little, um agente imobiliário sessentão que precisa realizar uma última grande venda para então usufruir de uma boa aposentadoria. A casa em questão é sua própria moradia onde agora vive sozinho após a morte da esposa e a partida do filho Luke (Scott Shepherd) viciado em drogas com quem não tem contato há anos. Rabugento, egoísta e solitário, mas com uma polpuda conta bancária, ele é a prova de que dinheiro não compra felicidade. Sua vida muda quando é obrigado a receber a neta em sua casa, Sarah (Sterling Jerins), prestes a completar dez anos e que até então não conhecia, enquanto seu filho cumpre uma temporada na prisão. No entanto, é óbvio que inicialmente ele não tem o menor traquejo com a menina, assim ela passa alguns dias hospedada com Leah (Keaton), uma adorável e prestativa vizinha, mas com quem Oren vive trocando farpas, para variar. Todavia, eles tem algo em comum: dificuldades para lidar com assuntos mal resolvidos do passado, principalmente perdas.

Enquanto Oren disfarça sua solidão ocupando seu tempo ocioso se metendo em pequenos conflitos da vizinhança, infernizando com seus comentários sarcásticos e preconceituosos e implicando até com um pobre cãozinho que vaga pelas ruas, Leah assume uma postura mais leve para lidar com a perda do marido e passou a se dedicar a carreira, não muito auspiciosa, de cantora em um pequeno restaurante. Todavia, sempre que as lembranças voltam à tona não consegue conter a emoção e extravasa em seu repertório musical, embora não consiga completar uma canção sequer sem cair no choro e entediar a plateia. Como o título brasileiro deixa claro, a doçura da vizinha vai pouco a pouco conquistando e desarmando o coroa ranzinza e os dois reencontrarão o prazer de amar, não só em uma relação a dois, mas com todos que os cercam. Já sabemos que o final feliz está garantido desde os créditos iniciais, mas o problema deste trabalho do diretor Rob Reiner, responsável pela clássico romântico Harry e Salle - Feitos Um Para o Outro, é não encontrar conflitos adequados para construir essa relação amorosa. Pior ainda, a velocidade com que eles são desenvolvidos. O filme parece ter o dobro de sua duração tamanha lentidão. O problema de Oren com o filho, agora já um ex-drogado, não vai adiante porque rapidamente é justificada que sua prisão é ilícita, que o rapaz foi vítima de um golpe. O avô pode até não aceitar a neta em um primeiro momento em sua casa, mas em um estalar de dedos já está caindo de amores pela garotinha que em nenhum momento o vê como um estranho. Já Leah deixa claro que tem medo de se envolver em um novo relacionamento, mas a forma insistente com que está sempre se metendo na vida do vizinho só pode significar que deseja a atenção dele ou talvez algo mais. O roteiro de Mark Andrus, surpreendentemente autor da história do ótimo e premiado Melhor é Impossível, se cerca de todos os facilitadores possíveis para incentivar o romance dos protagonistas, afinal parece que o filme foi talhado para proporcionar o encontro de seus intérpretes.

Keaton, que teve o auge de sua carreira quando era casada e musa inspiradora do cineasta Woody Allen, há anos estagnou sua carreira repetindo um mesmo perfil de personagem, uma imagem que acabou se estendendo a sua própria pessoa. Infelizmente parece que ela não atua mais, não vemos suas personagens em cena, apenas a atriz de cara limpa e mesmo sorriso estampado no rosto e que não se dá ao trabalho nem de fazer alguma alteração nos figurinos, sempre compostos por roupas básicas e geralmente claras. Sua Leah trás como único diferencial o fato de ser uma cantora, oportunidade para Keaton dispensar dublagens e de fato soltar a voz, apesar das músicas um tanto depressivas. Douglas já foi figurinha fácil em produções de suspense e com temáticas mais eróticas, mas há anos estava relegado a papeis apagados, até por conta de problemas pessoais e de saúde. Oren acaba sendo um personagem atípico em seu currículo, visto que assume de vez as rugas e o peso da idade, mas nem por isso deixa de lado sua porção de galã sedutor. Se já temos uma ideia do que esperar do trabalho da veterana atriz, seu companheiro de cena surpreende com diálogos cheios de ironias e críticas, só é uma pena que a mudança de temperamento do personagem seja tão intempestiva, embora seja totalmente compreensível tal comportamento por conta do bem-estar da neta. A trama ainda tenta tirar algum proveito do time de coadjuvantes para não sobrecarregar os astros principais. Temos Claire (Frances Sternhagen), uma idosa e divertida secretária da imobiliária de Oren, e os vizinhos Kate (Annie Parisse), uma mãe solteira meio hippie, e o casal de afro-americanos Kennedy (Yaca DaCosta) e Ray (Maurice Jones) que estão a espera de um bebê. Tais personagens só estão em cena para fazer número, pois seus problemas e pitacos em nada acrescentam à trama. Apesar de contar com um casal na melhor idade, Um Amor de Vizinha deixa claro que não busca ser um produto diferenciado e se contenta em ser apenas mais uma comédia romântica como tantas outras. Vale uma espiada para matar as saudades de ver Douglas e Keaton voltando a atuar com dignidade. O clima entre os dois é prá lá de positivo, revelando que se divertiram bastante com um texto leve e descontraído. Pena que para o espectador a sensação é de completo tédio. 

Comédia romântica - 94 min - 2014

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