sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

TODO MUNDO EM PÂNICO

NOTA 6,0

Zoando dois grandes sucessos do
terror teen da época, longa aproveita
outras tantas referências e extrapola
os limites da escatologia e nonsense
Em uma noite qualquer uma jovem está sozinha em casa preparando pipocas enquanto aguarda seu namorado chegar. De repente o telefone toca e do outro lado da linha uma voz estranha e sinistra começa a questioná-la sobre o que está fazendo e a respeito de seus filmes de terror prediletos. A brincadeira fica séria quando são revelados detalhes que só alguém que estivesse a espiando poderia saber e então ameaças de morte são disparadas até que um assassino mascarado invade o local. Em suma esta é a introdução do filme Pânico que revitalizou o subgênero dos seriais killers e hoje é considerado um clássico do terror. Isso se não fosse por certos detalhes cômicos. O namorado da moça é um negão cheio de trejeitos afeminados, o criminoso ao mesmo tempo que a ameaça se delicia vendo suas fotos nua em uma revista e quando a esfaqueia no peito o golpe é amortizado pela prótese de silicone. Isso é Todo Mundo em Pânico que apesar de abusar da escatologia, fazer apologia ao sexo e consumo de drogas, entre outras tantas piadas de mal gosto, indiscutivelmente faz um divertido casamento do já citado sucesso do mestre do terror Wes Craven com o plot de Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, ambas criações do roteirista Kevin Willianson, então um Midas do horror para adolescentes. O fio condutor da trama é o pesadelo vivido por Cindy Campbell (Anna Faris) e seus amigos que passam a ser perseguidos por um maníaco que os ameaça trazendo um segredo à tona. Há um ano o grupo atropelou e matou, sem querer querendo, um homem em uma estrada e jogaram o corpo em um lago. Em paralelo, a moça também vive o dilema de perder ou não a virgindade com seu namorado Bobby Prinze (Jon Abrahams) que sempre aparece de forma suspeita após um ataque do serial killer. Acompanhando os crimes literalmente bem de perto, está a repórter sensacionalista Gail Halstorm (Cheri Oteri) e o atrapalhado e problemático Doofy Gilmore (Dave Sheridan), um policial em treinamento que adora se divertir com a mangueira do aspirador de pó.

Completando o time de aloprados temos Shannon Elizabeth e Lochlyn Munro como o casal de namorados Buffy Gilmore e Greg Phillipe e Regina Hall interpretando a insuportável e tagarela Brenda Meeks. Seu desfecho é de fazer qualquer um vibrar de alegria, ou melhor, seu suposto fim trágico já que a personagem é ressuscitada em outros filmes da franquia. Não é spoiler dizer que ela é assassinada afinal o que o público-alvo quer ver são mortes e quanto mais bizarras melhor. Os irmãos Marlon e Shawn Wayans, que interpretam respectivamente Short Meeks, o chapadão da turma, e Ray Wilkins, que está sempre levantando suspeitas quanto a sua sexualidade, também assinam o roteiro em parceria com Buddy Johnson, Phil Beauman, Aaron Seltzer e Jason Friedberg. São muitas cabeças para pensar em tanta bobagem, não é? De fato, a julgar pelo tanto de piadas desconexas e referências a filmes e elementos da cultura pop em evidência na época, parece mesmo que boa parte das cenas foram escritas individualmente e de forma aleatória e depois alinhavadas ao argumento principal. Matrix, A Bruxa de Blair, O Sexto Sentido e até os premiados Titanic e Shakespeare Apaixonado são algumas das fitas de certa forma homenageadas. Acreditando que todo o mundo consome avidamente ou à força a cultura ianque, não a toa a maioria dos personagens são batizados para de alguma forma nos lembrar de algum filme, série de TV ou ator teen em evidência naqueles tempos, algumas piadas hoje já não surtem o efeito esperado. Por exemplo, Drew Decker, a jovem que se torna a primeira vítima do psicopata, é interpretada pela siliconada e gostosona Carmen Electra que estava em alta com o sucesso do seriado "S.O.S. Malibu". Mesmo em fuga, sua personagem dá um jeitinho de sensualizar em frente as câmeras só de lingerie como se estivesse correndo na praia tal qual fazia em quase todos os episódios. No contexto anárquico da produção a cena ainda diverte, mas dificilmente alguém hoje consegue fazer a conexão entre as referências.

Apesar da premissa indicar uma sátira ao estilo de Corra Que a Polícia Vem Aí, que tirava um sarro das fitas de agentes secretos e duplas dinâmicas da polícia, infelizmente Todo Mundo em Pânico apresenta um humor bastante aquém do esperado. Se os primeiros 20 ou 30 minutos empolgam pela oportunidade de identificarmos elementos e referências pertencentes as fitas de terror que serviram de base ao roteiro, o tempo restante é dedicado a uma sucessão de gags absurdas e a maioria explorando a escatologia visando arrancar gargalhadas de adolescentes que competem com os personagens para ver quem fala mais palavrões e solta mais puns. Se até então muitas pessoas achavam o cúmulo da baixaria a cena emblemática de Quem Vai Ficar Com Mary? na qual a personagem de Cameron Diaz usava por engano esperma no lugar de gel de cabelo, aqui temos para roubar o trono literalmente um banho de sêmen para levar a parceira às alturas. Isso sem falar na aparição de um pênis de verdade em uma sequência que recria com riqueza de detalhes a cena inicial de Pânico 2, mais uma grande fonte de inspiração para o roteiro. O diretor Keenen Ivory Wayans manda às favas o bom senso e coloca seu elenco, inclusive seus irmãos, para pagarem os mais inacreditáveis micos em uma receita com gastos mínimos e alto lucro. No final das contas o longa rendeu quase nove vezes mais que o valor de seu paupérrimo orçamento e deu o pontapé inicial para uma franquia de fonte inesgotável. Ou quase isso. Quatro continuações foram lançadas, praticamente independentes uma das outras. Não importa se fulano morreu em uma das partes e depois ressuscitado. Está no DNA da produção o descompromisso com qualquer lógica. O negócio é dar um intervalo de dois a quatro anos entre os filmes e aproveitar para zoar os sucessos desses períodos e avacalhar com a imagem das personalidades que deram algum vexame, que o diga Tom Cruise cuja exagerada participação no programa de Oprah Winfrey parece ter sido a razão de existir de um dos capítulos. Como tudo que é demais enjoa, a própria franquia ocupou-se de levar a fórmula para o limbo com seus exageros e repetições, além de que outras produções caça-níqueis calcadas em sátiras feitas a toque de caixa como Espartalhões e Os Vampiros Que Se Mordam aceleraram o processo de decadência. Todavia, não se espante se novos filmes da série venham a ser lançados. Material sempre irá existir. 

Comédia - 91 min - 2000

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