segunda-feira, 31 de julho de 2017

AS MEMÓRIAS DE MARNIE

NOTA 8,5

Suposta última obra de tradicional
estúdio de animação tem alguns tropeços
narrativos, mas nada que diminua o apreço
pela delicadeza do texto e das imagens
Fundado em 1985, o estúdio japonês de animação Ghibli ficou conhecido pelos belas e emocionantes histórias que se propôs a contar, sempre evocando temas difíceis ao público infantil tais como abandono, rejeição, doenças, guerras, fobias dos mais variados tipos e até mesmo a morte. O segredo do sucesso está na forma delicada como esses assuntos são abordados, diluídos em roteiros bem construídos e com personagens que evoluem, assim as produções da companhia agradam as mais variadas idades. Conquistam crianças com seu colorido aquarelado e diferenciado e os adultos com suas narrativas cheias de conteúdo complexo e ao mesmo tempo pureza ímpar. As Memórias de Marnie carrega em sua essência todas as características que fizeram a fama do estúdio, mas carrega junto o triste rótulo de ser a derradeira produção da casa. Na verdade não é um adeus definitivo da fértil e criativa empresa que presenteou o mundo com verdadeiras jóias como Meu Vizinho Totoro, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado entre tantas outras. Hayao Miyazaki e Isao Takahata, seus fundadores, resolveram tirar um período sabático afim de reorganizar o estúdio, afinal ambos já são idosos e precisam pensar em nomes para assumir o legado. Gente de talento certamente não vai faltar, inclusive há algum tempo muitos colaboradores conseguiram alçar seus voos solos dentro da própria empresa, como é o caso de Hiromasa Yonebayashi, animador do Ghibli desde 1997 e que já tinha provado seu talento como diretor-solo em sua animação de estreia O Mundo dos Pequeninos. A suposta última produção do estúdio narra a experiência única e enriquecedora vivida pela jovem e solitária Anna que perdeu seus pais muito cedo e desde então vive com Yoriko, sua tutora, que preocupada com a saúde frágil da garota e suas constantes crises de asma decide mandá-la para uma temporada em um bucólico vilarejo junto aos seus tios Setsu e Kiyomasa. Sempre introvertida e com dificuldades para lidar com as pessoas, principalmente da sua mesma faixa etária, ela encontra na habilidade para desenhar a melhor forma para se expressar.

Justamente buscando inspiração para rascunhar é que Anna em uma de suas andanças pelo campo se depara com um belo casarão isolado à beira-mar. Chama ainda mais sua atenção a imagem de uma bela garotinha com longos cabelos loiros que se depara na janela de um dos quartos. No entanto, em uma segunda visita ao local ela encontra a casa como se estivesse abandonada e moradores da região afirmam que há anos ninguém mora lá. Instigada, a menina volta outras vezes ao local e acaba fazendo amizade com a tal criança que se apresenta como Marnie. Imediatamente elas se identificam e começam a trocar confidências deixando no ar que ambas tem problemas mal resolvidos em seus passados. Todavia, como explicar os constantes sumiços de Marnie? E sua mansão que em uma noite está em clima de festa e cheia de convidados e no outro dia está silenciosa e com móveis cobertos por lençóis? O longa é uma adaptação do livro "When Marnie Was There" da britânica Joan G. Robinson publicado em 1967 e embora lide com assuntos pertinentes à cultura inglesa do período pós-guerra, como a orfandade e a decadência da aristocracia, ainda coloca em primeiro plano a história de uma personagem feminina complexa e o contato com a natureza como fator essencial para transformações, duas das principais características do estúdio Ghibli, assim como o uso de elementos sobrenaturais. Contudo, neste caso a trama é bem mais realista e introspectiva. Anna é como uma outsider, termo comumente utilizado para rotular pessoas que não se encaixam a estereótipos sociais e tampouco se identificam com grupos. Ela é uma criança problemática, teme o contato das pessoas, revela ter algum tipo de barreira na relação com sua tutora, uma somatória de fatores que a levam a se sentir diferente. A possibilidade de caminhar descalça pela grama, sentir o toque da água em sua pele e respirar ar puro do campo automaticamente a faz se libertar de amarras e consequentemente a se transformar. É na natureza que ela encontra elementos prazerosos, de segurança e que também enfrenta temores, como ventanias e a subida repentina da maré. As mudanças na fisionomia da personagem são feitas sutilmente no traço do desenho, mas emocionalmente é perceptível a troca de semblante, vide os seus esforços para manter a amizade com Marnie, algo que sente como uma necessidade para alimentar sua ânsia de viver.

Apesar de abordar mais uma vez a espécie de um ritual de passagem de uma jovem solitária para a descoberta de um novo universo que intrinsecamente lhe traz amadurecimento, tal qual os argumentos de A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, este trabalho não leva a direção do mestre Myiazaki que apenas acolheu o projeto. Yonebayashi além de dirigir divide os créditos do roteiro com Keiko Niwa e Masashi Ando, conseguindo realizar uma belíssima atualização do argumento original para a cultura oriental sem perder o foco principal. A grande questão não era discutir se Marnie é de fato um fantasma ou a criação de uma mente perturbada como fonte de escapismo. O gancho principal seria falar da importância do amor, da amizade, da compreensão e da confiança em alguém na vida de qualquer ser humano. A relação estabelecida entre Anna e Marnie permite que ambas troquem confidências, exponham seus medos e se permitam a experimentar coisas novas. É desse contato que a visitante da cidade grande, acostumada ao arredio cotidiano de uma metrópole, passa a adotar uma nova postura diante da sociedade e mesmo quando não está na companhia da amiga começa a dar sinais de força e superação. Uma prova disso é a amizade que acaba firmando com Sayaka, uma menina vizinha dos seus tios e com quem os primeiros contatos foram marcados por aspereza e grosserias, mas o mundo dá voltas. É uma pena que no clímax o roteiro mude drasticamente o tom minimalista e revele com excesso de informações e didatismo a real ligação entre Anna e Marnie, algo que destoa do estilo Ghibli que geralmente dispensa resoluções fáceis e mastigadas. O que deveria ser emocionante acaba quebrando o ritmo cadenciado adotado até então e, ironicamente, revelando certa pressa em encerrar à obra, como se o estúdio estivesse a soar que precisava encerrar suas atividades. Até os personagens coadjuvantes acabam sendo esquecidos e não são desenvolvidos, apesar de seus perfis inicialmente serem demarcados por interessantes características. Todavia, tal deslize não detrata As Memórias de Marnie. A animação como um todo é mais uma jóia do estúdio tingida com cores esmaecidas e com um avanço quanto a movimentação e sonorização de elementos como a vegetação e a água, embora as imagens estáticas ainda sejam emblemáticas. De qualquer forma, é a prova de que o Ghibli não pode fechar suas portas. Seus trabalhos são necessários, um patrimônio cultural para a humanidade. Que este seja apenas um até breve de seus criadores.

Animação - 103 min - 2014

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