quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A FAMÍLIA FLYNN

NOTA 7,5

Baseado em fatos reais, drama
comove com história de reencontro
de pai e filho com passado conturbado,
mas arrastado último ato prejudica obra
Saber lidar com os infortúnios da vida não é nada fácil. Assumir fracassos ou frustrações menos ainda. Histórias baseadas em fatos reais do tipo sempre foram uma grande fonte de inspiração para o cinema, mas o que não é comum é que o próprio personagem da vida real participe da realização de seu filme autobiográfico. A Família Flynn não só é inspirado no livro de memórias "Another Bullslit Night in Suck City" escrito pelo romancista Nick Flynn como ele próprio é um dos produtores. A narrativa aborda suas difíceis lembranças da infância e juventude e seu complicado relacionamento com seu pai. Interpretado por Paul Dano na fase adulta, Nick é posto para fora de casa após trair a namorada e está precisando de um emprego que lhe ofereça estabilidade. Já alimentava o sonho de ser escritor há um bom tempo, mas ainda assim duvidava de seu próprio talento e o destino parecia lhe negar a chance de melhorar de vida. Em suas andanças acabou conhecendo dois rapazes de índole duvidosa e foi morar com eles em um imóvel que ocupavam ilegalmente. Vivendo no submundo, inevitavelmente acabou caindo no vício das drogas e só não deu continuidade a sua degradação graças ao apoio de Denise (Olivia Thireby), uma jovem que trabalha em um abrigo para sem-tetos. Eles começam a namorar e ela lhe consegue um emprego no local. Quando acredita que as coisas estão melhorando, sua tranquilidade é abalada por um telefonema de Jonathan (Robert De Niro), seu pai que não via e nem mesmo conversava há quase vinte anos. Quando o filho era pequeno ele foi preso por alguns delitos, o que explica o afastamento entre eles, mas também sempre foi um homem desajustado, violento, alcoolatra, preconceituoso e homofóbico. Parece que todos os adjetivos negativos se encaixam na descrição de seu perfil que também engloba a mania de grandeza e o sentimento de superioridade. Considerando-se um grande contador de histórias, acredita que os EUA teve apenas três grandes escritores e é óbvio que ele seria um deles, embora por toda a sua vida tenha se dedicado a escrever um calhamaço sem fim que ninguém nunca leu, mas que autointitula como o maior romance americano de todos os tempos.

As únicas lembranças que Nick tem de seu pai são as dezenas de cartas que ele mandava ao filho, mas que de nada adiantavam para suprir sua ausência, inclusive para Jody (Julianne Moore), a esposa que abandonou e que acabou falecendo muito jovem e de forma traumatizante. Cometeu suicídio certamente por não suportar as situações que fora obrigada a vivenciar com um marido negligente e violento. Jonathan obviamente não se vê como alguém problemático e que faz mal aos outros, mas Nick o enxerga assim e é a sua visão que prevalece na narrativa. Apesar de transtornado com os acontecimentos de sua vida, o rapaz encontra no trabalho no centro comunitário uma razão para sua existência, só não esperava encontrar seu pai por lá e ainda por cima se ver obrigado a resolver os problemas que o levou a viver praticamente como um mendigo. Basicamente estruturado sobre o reencontro de pai e filho em momentos semelhantes de suas vidas, ambos buscando novos rumos para suas vidas ou algo em que possam depositar suas esperanças, este é o típico filme de ator. A narrativa em si não traz absolutamente nada de surpreendente, as situações inclusive são bastante previsíveis, mas elas engrandecem graças ao talento e dedicação de seus intérpretes. De Niro há anos estava trabalhando na base do piloto automático em produções que o engessavam a estereótipos ou o relegavam a pequenos papeis coadjuvantes. O diretor Paul Weitz soube aproveitar o potencial do premiado ator, já haviam trabalhado juntos na trilogia Entrando Numa Fria, e construiu um personagem trágico e que passa por diversas privações. Apesar da banca de intelectual e altivo no fundo é um pobre coitado, alguém tomado pelo orgulho e egoísmo e que no fim da vida precisa aprender a ser humilde, algo difícil devido a sua personalidade irascível e também pela deterioração de sua saúde física e mental.

O jovem Dano também se sai bem com um papel bastante denso. Revelado ao grande público nos elogiados e premiados Pequena Miss Sunshine e Sangue Negro, o ator demonstra amadurecimento a cada novo trabalho e não fugiu da raia ao assumir a responsabilidade de representar um personagem da vida real, alguém tão próximo à produção que poderia intimidá-lo com suas observações. No entanto, o jovem não se acanhou e mergulhou de cabeça na dramaticidade da história de vida de Nick, uma trajetória repleta de momentos tristes e dificuldades, mas é fascinante saber que ele tenha superado todas as adversidades e se firmado como um grande escritor. Vencedor de diversos prêmios literários, o escritor já tinha certa proximidade com o cinema sendo casado com a atriz Lili Taylor que faz uma ponta no filme como Joy, uma das funcionárias do abrigo. A experiência de acompanhar todo o processo de realização de sua cinebiografia acabou inspirando Nick e escrever um novo livro contando tais memórias, mais uma vez remexendo em tristes lembranças e reafirmando sentimentos negativos quanto a figura de seu pai. Curioso que um projeto do tipo tenha caído nas mãos de Weitz que além de dirigir também assinou o roteiro. Seu início de carreira foi com a comédia American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível e, como já dito, é o responsável pelas confusões de Ben Stiller tentando conquistar a confiança do sogrão De Niro. Contudo, ele também é o responsável pelo hoje cult Um Grande Garoto, comédia romântica em que um conquistador barato consegue cativar as mulheres usando a ladainha de pai solteiro. Falar sobre relações humanas, principalmente familiares, realmente é seu forte e ele deveria investir mais nas produções independentes com as quais parece ter mais intimidade e poder de decisões. Isso fica claro, por exemplo, no estilo de edição que imprime um ritmo lento à obra, algo acentuado pelo uso da narração em off ilustrando algumas passagens, assim os personagens podem revelar seus reais sentimentos que suas ações cotidianas comumente omitem. Sensível, tocante e reflexivo, A Família Flynn é mais um título a somar na lista de tantas obras que apontam a cultura e a arte como responsáveis por salvar vidas. Pena que as próprias distribuidoras de filmes restrinjam o acesso do público a produções do tipo, uma contradição absurda.

Drama - 102 min - 2012

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