segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MORTDECAI - A ARTE DA TRAPAÇA

NOTA 3,0

Estranha e confusa, comédia
comete o pecado de não ser engraçada
e atuação afetada de Johnny Depp
revela necessidade de se reciclar
Johnny Depp é reconhecidamente um ator que não tem vergonha em literalmente vestir um personagem e por muitas vezes se entregou de corpo e alma às bizarrices de seu amigo pessoal Tim Burton, o diretor com quem mais trabalhou. Com outros no comando, é fato que ele tem certas dificuldades e não rende o esperado. Uma rara exceção foi a criação do excêntrico Jack Sparrow em parceria com Gore Verbiski que dirigiu os três primeiros filmes da série Piratas do Caribe. Não é a toa que nos demais episódios das aventuras pelos sete mares o ator apenas repetiu trejeitos e caras e bocas, seus diretores não souberam extrair vivacidade do papel. Sim, Depp é o tipo do ator que parece deixar transparecer quando não está a vontade em uma produção e é essa a sensação que temos ao assistir Mortdecai - A Arte da Trapaça, mais uma tentativa do astro em provar que não precisa ser refém de personagens (não tão) bizarros e tampouco se aposentar representando um pirata trapaceiro, bêbado e de sexualidade duvidosa. Contudo, não se pode dizer que com este filme esperava ser levado a sério, afinal o objetivo é fazer graça com as peripécias do personagem-título. Charles Mortdecai é um conhecido negociador de obras de artes que conhece muito bem as artimanhas e vigarices que movimentam este meio. Ele próprio é um vigarista de mão cheia. Casado com Johanna (Gwyneth Paltrow) e tendo Jock (Paul Bettany) como seu fiel escudeiro, ele está passando por dificuldades financeiras, o que o obriga a colocar a venda algumas das preciosidades de seu acervo pessoal. Sabendo da crise, o inspetor Martland (Ewan McGregor) pede a ajuda de Mortdecai para solucionar o mistério em torno do assassinato de uma restauradora de quadros que no momento de sua morte trabalhava em um valiosa pintura do espanhol Goya que sumiu. Ele aceita a tarefa, pois ao final poderá ter sua dívida com o governo abonada e assim viaja na companhia de seu guarda-costas para várias partes do mundo para descobrir o paradeiro do quadro, deixando assim o caminho livre para o inspetor dar em cima de sua mulher por quem é apaixonado desde a juventude.

São muitas as (supostas) piadas envolvendo o repúdio da esposa e o apreço do protagonista pelo tal bigode, um detalhe estético que Depp fica quase refém para poder trabalhar, mas para o espectador ele representa absolutamente nada. Não conseguimos ver graça nas várias tiradas de Johanna quanto ao adorno do marido, detalhe que pode forçar a separação do casal. Aliás a personagem é a personificação do que sentimos acompanhando o filme: indiferença. Ela aparece no total alguns poucos minutos e num papel que não lhe exige grandes esforços, quase à margem da trama. Não temos a noção real de seu sentimento quanto a Mortdecai e tampouco encontramos razões para o amor reprimido de Martland, a não ser a beleza estonteante desta mulher. Da mesma forma, quem assiste não define muito bem suas impressões de imediato quanto ao filme e não encontra justificativas para chegar até o final. Baseado no romance de Kyril Bonfiglioli, o roteiro de Eric Aronson não tem propriamente uma boa história a contar e se sustenta bem mais com o leque de personagens oferecido, propositalmente caricaturais não só visualmente, mas também em suas relações interpessoais representando uma aristocracia decadente. Sendo assim, o desempenho e química do elenco são fundamentais para o filme funcionar, o que infelizmente não é o caso. Mortdecai é um personagem bastante complexo. Ele é um homem culto, sofisticado e conhece muito sobre o mundo das artes, porém, é mimado e parece sentir prazer em cometer atos ilícitos, é o que o motiva a "trabalhar". Ao mesmo tempo carrega certo ar de ingenuidade visto a forma como reage às situações à sua volta. Acostumado a interpretar papeis excêntricos, este talvez seria o tipo mais comum no currículo de Depp nos últimos dez anos, porém, ele afetou sua criação com trejeitos e maneirismos, resquícios de tantas vezes ter encarnado Jack Sparrow certamente e algo já percebido em outros de seus trabalhos. É como se ele precisasse de algum tique característico para usar como muleta sempre e no caso temos muitos, entre eles o incessante afagar do tal bigode da discórdia. E o que dizer de suas piadas sobre diferenças entre americanos e ingleses? Eram para suscitar risos? Soam mais como demonstrações de cultura inútil de alguém tentando ressaltar superioridade para escamotear defeitos.

Por ser um covarde por excelência, mas metido a esperto e valentão para bancar pose, Mortdecai só cresce em cena quando está na companhia de Jock, formando assim uma inusitada parceria. Ao invés de o empregado ser dependente das ordens do patrão, no caso é o serviçal quem no fundo dá as cartas. Apesar disso, fica explícito que seu objetivo de vida é servir fielmente, seja na riqueza ou na pobreza. O mesmo não se pode dizer de Johanna que quando percebe que a vida financeira do marido está a perigo começa a jogar charminho para Martland. Pena que o triângulo amoroso configure mais uma falha da trama, não necessariamente por causa dos atores, mas sim do diretor David Koepp que não soube explorar todo o potencial de uma trinca de peso. McGregor surge em cena mais para endeusar desnecessariamente a personagem de Paltrow (como se a direção já não fizesse isso o suficientemente com takes planejados) do que propriamente para se firmar como um rival do protagonista. Depp já havia trabalhado com Koepp no suspense A Janela Secreta, assim de certo havia um mínimo de afinidade nos bastidores, tanto que o astro também é produtor da fita, mas o que se vê na tela é frustrante e desconjuntado. O pecado maior da obra é se assumir como comédia quando a ausência de timing cômico é gritante do início ao fim, apesar dos esforços de Depp e Bettany em tentarem formar umas daquelas famosas duplas dinâmicas do cinema e quem sabe assim garantir uma franquia. Pode esquecer! Ignorado pela crítica e um fracasso retumbante financeiramente, Mortdecai - A Arte da Trapaça tem uma remota chance de no futuro ganhar certa aura de produção cult como aconteceu com tantas obras nonsesnses do passado que ganharam reconhecimento tardio. Se isso vier acontecer não será por qualidades do texto ou da direção e sim pelo desempenho dos atores que se esforçam para alcançar certa coesão em suas interpretações em meio ao caos que é este filme. Além do universo bastante restrito, afinal a dinâmica do mundo do comércio das artes é para  poucos, não chegamos a ser cativados nem mesmo pelo protagonista para nos importarmos se ele vai virar herói ao final, terá suas dívidas relevadas ou se vai continuar casado. Desde a introdução a empatia não acontece porque ele é um sujeito cujos atos não despertam admiração, ódio ou sequer piedade. Simplesmente está em cena aprontando peripécias sem sentido e, infelizmente, escancarando que Depp está com sua imagem desgastada.

Comédia - 107 min - 2015

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